COMPUTER WELT und das <<revolução tecnico-científica informacional>>


Excertos de um texto escrito para um livro didático de Geografia não publicado

(Ou: como falar em "meio técnico-científico informacional" desviando o Milton Santos)


Em 1981, a banda de música eletrônica alemã Kraftkerk lançou um álbum chamado “Mundo Computador” [Computer Welt / Computer World]. Nessa época os computadores ainda não tinham “dominado o mundo”: ainda não tinham se tornado itens totalmente necessários para os negócios, muito menos estavam presentes na maioria das casas das pessoas. Mas este álbum curiosamente anunciou, com enorme precisão, a revolução que aconteceria nos anos 1990, quando a tecnologia dos computadores se instalou completamente sobre a vida cotidiana:


"Automat und Telespiel

Leiten heute die Zukunft ein

Computer für den Kleinbetrieb

Computer für das eigene Heim"


"Autômato e telejogo

Apresentem-nos o futuro

Computador para pequenos negócios

Computador para o lar"


O Kraftwerk nesse caso não “previu” simplesmente o futuro. Eles notaram uma revolução tecnológica que já estava posta em curso desde os anos 1970, chamada de “terceira revolução industrial”. Essa revolução foi responsável pelo grande desenvolvimento científico da eletrônica e da informática, que penetraram profundamente nas tecnologias utilizadas na vida cotidiana da sociedade moderna capitalista [...] É importante notar, finalmente, que há uma relação intrínseca entre essa revolução técnico-científica-informacional e o desenvolvimento do capitalismo financeiro (tal como o capitalismo opera hoje em dia). Isso porque os fluxos de capitais (quer dizer: os trâmites entre as bolsas de valores, as transferências bancárias) só podem acontecer, na velocidade em que acontecem (e cada vez mais acelerados), através das redes de telecomunicação informáticas (quer dizer: computadores e internet). Essas tecnologias correspondem à infraestruturas físicas (cabos, satélites, etc) que estão presentes no espaço geográfico, sendo um meio "técnico-científico-informacional" que passa à gestão do Estado sobre seu território e à gestão policial (privada e estatal) sobre a população.


"Interpol und Deutsche Bank

FBI und Scotland Yard

Flensburg und das BKA

haben unseren Daten da"


"Interpol e Deutsch Bank

FBI e Scotland Yard

Flensburg* e a BKA**

todos têm nossos dados"


[*o "Detran" do Reino Unido ** a Agência Federal de Polícia Criminal da Alemanha ocidencal


"Agora que a vida foi invadida por microeletrônicos, toda nossa sociedade é computadorizada, e cada um de nós está armazenado na forma de algum item de informação por alguma companhia ou organização, somos todos armazenados por número" disse Hüter em 1981. "Quando você entra na Alemanha pela fronteira, eles colocam seu passaporte em uma máquina concectada ao Bundeskriminalamt (o BKA, Agência Federal de Polícia Criminal) de modo que eles conseguem checar se você pode entrar ou sair do país, por vários motivos que não tem a ver com o seu passaporte estar em ordem".


Na faixa-título do disco Mundo Computador [Computer Welt / Computer World] (que realmente soa como um código de computador sendo teclado, numa batida eletrônica rápida e modulada, que se repete de maneira ascendente), uma voz meio metálica, estranha, claustrofóbica, minitransistorizada e sintetizada por computadores canta a seguinte sequência de palavras :


"Numbers / Money / People / Time / Travel / Communication / Entertainment"

"Números / Dinheiro / Pessoas / Tempo / Viagens / Comunicação / Entretenimento "


"Todo o mundo ocidental, todos os seus desgastes, todas as suas necessidades e os seus desejos, está perfeitamente representado nessas sete palavras" -- disse o psicólogo Oliver James, que anos depois chamaria de affluenza (trocadilho em inglês entre affluence, "riqueza", e influenza, "gripe") o contágio que pode florecer, sem limites, dentro deste mantra moderno.


(O contágio de Numbers chegou de fato até o Rio de Janeiro, fazendo antes escala no Afrika Bambaata, onde estabeleceu as bases para o funk carioca -- além do hip hop, techno, trance, EBM, new beat, e trocentos outros gêneros...)


Parece que o Mundo Computador, tal como descreveu o Kraftwek no início dos anos 1980, se refere mesmo ao domínio praticamente total que a tecnologia científica-informacional assumiu sobre a vida humana na sociedade moderna capitalista dita "globalizada".




Kraftwerk, 1981