DIÁRIOS DE QUARENTENA | 28 de abril a 2 de maio

2&3DORM

a necessidade implica, pouco a pouco, a fundamental contradição com o limite onde tropeça: a inadequação à intrínseca totalidade alimenta a dialética do nascer e do morrer. É a simultaneidade da presença e da ausência de todo o universo, o mesmo tipo em certo modo utópico de presente que impulsiona o "finito" a se rebelar contra seu estado. -- Ernst Bloch, O pensamento de Hegel

Como extrair dessas circunstâncias adversas a clarividência que nos permitirá, aqui e agora, distinguir entre os caminhos da mercadoria e aqueles da vida? É possível transformar essa agonia de não pertencermos a nós mesmos, essa impotência de modificar as condições do saque existencial, em uma força catalizadora de outro fim do mundo?

Parece que durante muito tempo estivemos vivendo no mundo sem realmente sentir-lo. A casa está queimando e seguimos indo ao trabalho, tendo filhxs, nos embriagando, etc., como se nada estivesse acontecendo. Olhando de longe, não está claro se isso é loucura ou pulsão de vida. Parece mais a inércia da sobrevivência.

Por agora, em meio ao pânico, nos damos conta de que somos todos mortais. Sempre o soubemos: vamos todos morrer. Mas agora parece que poderia ser este mês. O que esta consciência pode nos ensinar?

Como todo sentimento, o medo que desperta a administração polítco-estatal da pandemia é uma função corporal. Por um momento, o sujeito econômico, estruturalmente desconectado de seus sentimentos em nome da produtividade, volta a entrar em contato consigo mesmo e com a realidade. Não é uma aterrisagem fácil, mas nossa capacidade para viver no corpo, para reconhecer seus sentimentos e necessidade reais (não as impostas pelo mercado), ela depende da nossa capacidade de transmutar a história inumana que nos afoga em realização do humano que ainda está latente em nós.



Rangda dancer, Bali

“Mãe, o que é o medo?”

“É o que tem impede de responder essa pergunta

Por ti mesma, filha"

DAQUI DA NOSSA CELA


Em 1871, lá onde hoje se conhece como Europa, era um lugar bastante diferente, não apenas pela quantidade de artefatos tecnológicos disponíveis ou pela densidade das cidades, mas o próprio tecido social possuía uma qualidade distinta. Naquele ano, uma de suas capitais mais importantes foi protagonista de uma radical transformação do tempo-espaço; ocorreu uma Comuna revolucionária da qual emanou um potencial humano que tinha sido até então violentamente contido. Para os atuais habitantes do Chile, é fácil reconhecer o conteúdo mais profundo desse evento, porque acabam de viver uma experiência muito parecida. Uma das tantas coisas emanadas do coração desse frutífero ano de revoluções, foi o poema que se transformaria no hino da Internacional.


Esse canto que ainda hoje é celebrado, anunciava uma tomada de consciência muito particular. O olhar que essa consciência exige para que seja possível assimilar sua visão é escassa em nosso tempo. Gustave Coubert, Eugene Pottier e Augusto Blanqui, todos membros ativos da Comuna, foram testemunhas vivas. A realidade estava menos fragmentada, e tudo indica que haviam menos camadas de maquiagem e narrativas obscurecedoras da percepção em relação as que nos atormentam hoje. Foi nesse contexto, e após um intenso período de incubação, que nasceu ao mundo a classe trabalhadora internacional como organismo auto-consciente e com um sentido (dialético) universal.


A dominação na sociedade capitalista deve ser estritamente diferente da dominação do mundo feudal. Com a mercantilização da terra, os produtores na moderna sociedade perdem qualquer conexão direta com a produção e são separados de seus meios originais; enquanto que os servos, todavia, estavam estreitamente ligados a terra. Em consequência, todos os indivíduos modernos estão constantemente obrigados a vender sua própria força de trabalho, a única mercadoria que tem, a outra pessoa, e assim se tornam trabalhadores que sofrem do estranhamento de sua própria atividade. Segundo Marx, esta transformação da relação entre os humanos e a terra é decisiva para entender a especificidade do modo de produção capitalista[1].

O hino fazia referência direta ao programa desta classe, que até então se expressava como uma unidade coesa – só Deus sabe quanto fracionamento e aglutinamento forçoso se seguiu a esse primeiro impulso vital. O objetivo era realizar um sonho ancestral: a classe trabalhadora, que ao ser totalmente despojada de sua autodeterminação, havia entrado em contato com uma consciência profunda, trans-histórica, despojada de toda ideologia física, intelectual e espiritual, carregava a boa nova da dissolução de todas as classes que dividem a humanidade artificialmente para construir uma comunidade humana igualitária, autoconsciente, cooperativa, solidária, etc. Este sonho recorrente na história humana civilizada se expressava de forma global pela primeira vez. Até os últimos confins do mundo como a Patagônia, se uniram ao grito da liberação.

A unidade originária com a terra desapareceu com o colapso da dominação pessoal pré-capitalista. Seu resultado é a alienação da natureza, da atividade, do ser genérico e de outras pessoas, ou dito em termos mais simples, a alienação moderna surge da total aniquilação da “face afetiva” da produção. Quando a terra se torna uma mercadoria, se modifica radicalmente a relação entre os humanos e a terra, e se reorganiza em nome da produção de riqueza capitalista. Após a universalização da produção de mercadorias em toda a sociedade, o conjunto da produção não se dirige principalmente para a satisfação das necessidades pessoais concretas, mas somente para a valorização do capital. Seguindo a nova racionalidade de produção, o capitalismo simplesmente não permite que os trabalhadores realizem seu trabalho a sua vontade, pelo contrário, de acordo com seu “sujo egoísmo”, transforma ativamente todo o processo de produção de tal maneira que a atividade humana é completamente submetida a uma dominação reificada, sem consideração pela autonomia do trabalho e segurança material[2].

A lógica ilustrada e patriarcal diminui qualquer coisa que se aproxime ao pensamento poético, como isso que habitualmente se conhece por utopia - um conceito que foi até então mal utilizado e subjugado na maioria dos casos[3]. “O quer dizer que todos tenham condições dignas de vida e liberdade de decidir sobre o que fazer com o seu tempo?” Talvez, por razões karmicas, houve em nossa história um momento de inércia muito mais no que tende a dividir, sejam as sociedades ou os indivíduos. Nesse sentido, este sonho não chegou a se tornar concreto, e hoje estamos aqui, sendo testemunhas do que provavelmente foi o 1º de maio menos movimentado desde o massacre de Chicago. As coisas mudaram tanto que em alguns lugares do primeiro mundo grupos de civis entraram fortemente armados em edifícios do governo para exigir a retomada ao direito de trabalhar. No Chile, um dos chefes do cartel Matte sintetizou essa situação perfeitamente: “o crescimento econômico vai ser um imperativo ético”. Enquanto isso, nas ruas de Santiago, a polícia nos lembrou que ela não pára de inovar ao levar para as ruas seus caminhões novos, equipados de alto-falantes que comunicavam a todo volume ordens robóticas aos manifestantes: “as pessoas que estão manifestando de maneira violenta são minoria, afastem-se e mantenham-se em zona segura. A manifestação está sendo registrada com tecnologia disponível pelos carabineiros[4]. Lembrem-se que este material pode ser considerado como evidência...”.

Diariamente usamos energias incomensuráveis, como usamos durante o sonho. O que fazemos e pensamos está carregado com o ser de nossos pais e ancestrais. Um simbolismo incompreensível nos escraviza sem cerimônia. Algumas vezes ao despertar recordamos de um sonho. Desta forma, excepcionais raios de intuição iluminam as ruínas de nossas energias que passam rapidamente ao longo do tempo.

Nunca é bastante insistir sobre importância dos sonhos. O fato de que a vida nos parece mais um pesadelo recorrente do que um sonho é outra lembrança disso.

Quando a investigação psicanalítica colocou a luz sobre a importância dos sonhos, a mesma comunidade cientifica que hoje dita a narrativa oficial sobre a realidade rapidamente acusou a iniciativa de ser nada mais do que “um censurável hobby, anticientífico e com uma perigosa tendência ao misticismo”. Vivemos negando um terço de nossas vidas. Pode ser essa a reação do “homem moderno” contra a exagerada importância que nossos ancestrais davam aos fenômenos oníricos?


Não é possível reconstruir o passado levianamente, mas seria um erro fazer vista grossa sobre o fato que as gerações que nos precederam sonharam assim como nós sonhamos. Sabemos que prestavam atenção aos sonhos e que em muitos casos eram considerados ferramentas práticas utilizadas na vida cotidiana, algumas vezes inclusive para “prever o futuro”. Na Grécia antiga e outras civilizações ocidentais, teria sido impossível organizar uma campanha militar sem intérpretes oníricos tal como hoje exércitos não invadem um território inimigo sem antes consultar imagens de satélites.


Alexandre Magno sempre viajou com um comitê de onirorocríticos. Após de tentar por vários dias a tomada da cidade de Tiro – que naqueles dias ainda era uma ilha – Alexandre estava a ponto de se dar por vencido, quando uma noite sonhou que um sátiro dançava vitoriosamente. Seu vidente e onirocrítico mais próximo interpretou isso como um bom presságio, o que deu mais uma vez a confiança necessária para Alexandre conseguir finalmente conquistar a cidade.

Quem já se apaixonou dormindo, quem já foi visitado por um amigo ou um familiar que já não existe mais, ou quem já despertou de maneira repentina durante uma angustia avassaladora, etc., jamais vai questionar os poderes dos sonhos. Dizem que os sonhos vem do estomago - será que temos uma digestão boa o bastante durante o dia para irmos dormir cada noite e realmente descansar? Um estômago mental lento. As coisas se movem rapidamente e vivemos endividados, quanto dessas dívidas não pagamos enquanto dormirmos? Talvez seja esta a razão pela qual, facilmente, subestimamos os sonhos diurnos.

Não importa o tamanho do salário que possam ganhar os trabalhadores, isso não lhes permite escapar da miséria absoluta. A exclusão total da riqueza objetiva se mantém como a caracterização essencial do trabalhador sob o modo de produção capitalista e sua causa fundamental é a alienação da natureza[5].

Nos acostumamos à frustração tão rapidamente como nos acostumamos com um trabalho ou com relações que nos ferem. Nossos vigilantes são pré-históricos, e se torna cada vez mais fácil sucumbir a rotina das razões. Por isso é necessário celebrar os surrealistas de todos os séculos e realizar os atos surrealistas de nossa vida cotidiana. Quem não tem sonhado com um mundo melhor? O organismo deve despertar suas capacidades criativas para manter-se vivo, e os sonhos são uma fonte inesgotável de criatividade. Qualquer um que tenha passado pela Praça Dignidade[6], ou qualquer outra zona temporalmente autônoma que tenha brotado durante a insurreição recente no Chile, teve uma experiência disso que extrapola as palavras.

Que bem nos foi dado ao nos entrelaçarmos à linguagem. O ego, por exemplo, vai se desfazendo de suas âncoras quase sempre através das narrativas – e de gestos, como os que vimos. E quão rígidas podem se tornar as coisas quando se limitam à linguagem estruturada e estruturante dessas narrativas. Devemos a elas total devoção e as seguimos como lei, assim como o conjunto de regras interiores que regiam o Dom Quixote. Quão livre somos ao sair de nossa prisão mental? Quanto tempo levamos encarcerados?

RB / 2&3Dorm

2 de maio


[1] Ver Karl Marx’s Ecosocialism de Kohei Saito, disponível em inglês aquí. [2] Idem, Saito. [3] Ver “Estudos sobre a utopia na sociedade arruinada (primeira parte)”, 2&3DORM#2 disponível aqui. [4] NT. Carabineiros no Chile se refere a uma instituição ostensiva de polícia. [5] Saito. [6] Durante as revoltas selvagens no Chile no ano de 2020, a Praça Italia, ponto clássico de concentração e de protestos na cidade de Santiago, foi rebatizada de “Praça Dignidade” pelos manifestantes. (NT)