MOTIM NO CAPITÓLIO | mike davis

"Nossa única regra era muito simples: nenhuma ideia ou imagem que pudesse se prestar a uma explicação racional de qualquer tipo seria aceita."

"A tomada da cidade de Washington na América"

Library of Congress Prints and Photographs Division


MOTIM NO CAPITÓLIO

MIKE DAVIS

7 de janeiro de 2021

Os 'sacrilégios' de ontem em nosso templo da democracia -- oh, pobre cidade corrompida na colina, etc. -- constituíram uma 'insurreição' apenas em sentido tragicômico. O que era essencialmente uma turba de motoqueiros vestidos de palhaços e o que restou dos bárbaros de guerra -- incluindo o cara com o rosto pintado, posando de bisão com chifres, num casaco de pele -- invadiu o ultimate country club, ocupou o trono de Pence, perseguiu senadores pela rede de esgotos, cutucou os narizes, rasgou arquivos e, acima de tudo, disparou infindáveis selfies para enviar a seus amiguinhos do lado de fora. Ou sequer tinham a menor ideia. (A estética era puro Buñuel e Dali: "Nossa única regra era muito simples: nenhuma ideia ou imagem que pudesse se prestar a uma explicação racional de qualquer tipo seria aceita.")


Mas algo inesperadamente profundo aconteceu: um deus ex machina que removeu a maldição de Trump das linhagens dos falcões de guerra conservadores e dos jovens leões de direita, cujas ambições até ontem estavam acorrentadas pelo culto presidencial. Hoje foi o sinal para a tão esperada fuga da prisão. A palavra 'surreal' já está batida, mas caracteriza com precisão a orgia bipartidária da noite anterior, com metade dos que negaram a eleição do Senado canalizando o apelo de Biden por um 'retorno à decência' e vomitando grandes quantidades de piedade nociva.


Deixa-me ser claro: o Partido Republicano acaba de sofrer uma cisão irreparável. Pelos padrões do Fuhrerprinzip da Casa Branca, Pence, Tom Cotton, Chuck Grassley, Mike Lee, Ben Sasse, Jim Lankford, e até Kelly Loeffler, são agora - todos - traidores inafiançáveis. Isso ironicamente permite que eles se tornem candidatos presidenciais viáveis em um partido de extrema direita, mas pós-Trump. Desde a eleição (correndo nos bastidores), grandes empresas e muitos dos mega-doadores republicanos, queimaram suas pontes com a Casa Branca, de forma ainda mais impressionante no caso da mais alta instituição republicana, a National Association of Manufacturers [Associação Nacional dos Fabricantes], que ontem convocou Pence para usar a 25ª Emenda com o objetivo de depor Trump. Claro, eles ficaram bastante felizes nos primeiros três anos do regime com os cortes colossais de impostos, amplas reversões da regulamentação ambiental e trabalhista e um mercado de ações regado à metanfetamina. Mas o ano passado trouxe o reconhecimento inevitável de que a Casa Branca foi incapaz de administrar grandes crises nacionais ou garantir a estabilidade econômica e política básicas.


Pintura do Washington Navy Yard visto desde o rio Anacostia, 1814, Washington, DC.

William Thornton /Library of Congress


O objetivo é um realinhamento de poder dentro do Partido com grupos de interesses capitalistas mais tradicionais, como o NAM e a Business Roundtable, bem como com a família Koch, há muito desconfortável com Trump. Não deve haver ilusão das razões pelas quais 'republicanos moderados' tenham subitamente ressuscitado da sepultura; o projeto emergente preservará a aliança central entre cristãos evangélicos e conservadores econômicos e, com toda a probabilidade, defenderá a maior parte da legislação da era Trump. Institucionalmente, os republicanos do Senado, representados por um forte time de jovens talentos, governarão o terreno pós-Trump e, por meio da competição darwiniana feroz - acima de tudo, a batalha para substituir McConnell -, trarão uma sucessão geracional provavelmente antes mesmo que a oligarquia octogenária dos democratas saia de cena. (A principal batalha interna nos próximos anos que seguem à era pós-Trump provavelmente se concentrará na política externa e na nova guerra fria com a China.)


Esse é um lado da divisão. O outro é mais dramático: os Trumpistas-raiz tornaram-se, de fato, um terceiro partido, fortemente protegidos na Câmara dos Representantes. Enquanto Trump se embalsama em amargas fantasias de vingança, a reconciliação entre os dois campos provavelmente se tornará impossível, embora deserções individuais possam ocorrer. Mar-a-Lago se tornará o acampamento base para o culto da morte de Trump, que continuará a mobilizar seus seguidores ferrenhos para aterrorizar as primárias republicanas e garantir a preservação de um grande contingente “Duro de Matar” dentro da Câmara, bem como nas legislaturas dos estados vermelhos [Republicanos]. (Os republicanos no Senado, com acesso a enormes doações corporativas, são muito menos vulneráveis a esses desafios.)


Os especialistas liberais de amanhã poderão nos assegurar que os republicanos cometeram suicídio, que a era de Trump acabou e que os democratas estão prestes a recuperar a hegemonia. Declarações semelhantes, é claro, foram feitas durante as cruéis primárias republicanas em 2015. Eles pareciam muito convincentes na época. Mas uma guerra civil aberta entre os republicanos só pode proporcionar vantagens de curto prazo aos democratas, cujas próprias alianças foram prejudicadas pela recusa de Biden em dividir o poder com os progressistas. Além disso, livres das fátuas eletrônicas de Trump, alguns dos senadores republicanos mais jovens podem se mostrar competidores muito mais formidáveis pelo voto dos subúrbios brancos com educação superior do que os democratas de centro imaginam. Em qualquer caso, o único futuro que podemos prever com segurança - uma continuação de extrema turbulência socioeconômica - torna as bolas de cristal políticas inúteis.

PUBLICADO ORIGINALMENTE em https://newleftreview.org/sidecar/posts/riot-on-the-hill

TRADUÇÃO Bruno Xavier e Allan Cob

Capitólio americano após incêndio provocado pelos britânicos em 1814

George Munger/Library of Congress


A Batalha de Washington (também conhecido como A queima de Washington) de 1814 foi um importante confronto militar durante a Guerra entre os EUA e o Reino Unido iniciada em 1812. Em 24 de agosto de 1814, após terem derrotado uma tropa americana em Bladensburg, as forças britânicas ocuparam Washington e incendiaram vários prédios públicos, incluindo a Casa Branca e o Capitólio, além de outras instalações das forças armadas e do governo federal norte-americano. [...] A queima dos edifícios públicos em Washington não tinha importância estratégica prática e foi criticada pelos americanos e até por britânicos como desnecessária. Muitos ingleses na época defenderam essas ações como parte de uma retaliação pelas incursões estadunidenses no Canadá, que também causaram danos. A tomada da capital americana, contudo, não se provou significativa para o curso da guerra, que terminou em um impasse estratégico. Cinco anos mais tarde, em meados de 1819, Washington já havia sido reconstruída e restaurada.