NECROCOERÊNCIA

Bruno X.


O mau tempo continua. Novos desastres são aguardados.” Guy de Maupassant

A resposta política do governo Bolsonaro à crise deflagrada pelo coronavírus tem vindo das mais variadas formas. Em todas elas, porém, através de ataque às instituições, desprezo ao conhecimento científico, desrespeito às diretrizes dos órgãos de saúde internacionais e criminosa negligência à saúde da população, em especial a dos mais velhos.


Bolsonaro vem demonstrando a intenção de encontrar uma saída para essa crise a partir do pânico, criando um espaço político caótico e, assim, cavando possibilidades para o surgimento de “uma forma legal daquilo que não pode ter forma legal”. Nas palavras de Giorgio Agamben, o estado de exceção. Isso gera um vácuo político que está, nesse momento, em disputa. Este receberá uma resposta excepcional de quem quer que se aventure a ocupá-lo. Seja pelo governo em situação, por anseios golpistas dos militares da caserna ou por coalizões franzinas da centro esquerda brasileira; o que se sente pelos encaminhamentos recentes da República é que não há outra saída: medidas provisórias, decretos, pedidos de impeachment, dribles jurídicos etc., passam a se tornar, por dentro da própria Constituição Federal, um movimento de exceção que promete ser longo, senão permanente. Aqui entretanto, não se vê, ainda, uma sobreposição do poder executivo sobre o Congresso, como é comum de se observar em países que enfrentam crise extrema. Enquanto o poder legislativo gasta muito de seu tempo sendo apenas reativo, ratificando ou negando as disposições contraditórias promulgadas pelo executivo sob a forma de decretos, ele também demonstra poder para ocupar politicamente esse vácuo, isolando Bolsonaro.


No dia 30/03/2020, surgiu uma carta assinada por Ciro, Haddad e Boulos, em coalizão inédita, pedindo a renúncia do púria que ocupa agora o mais alto cargo do país. A assim chamada “frente democrática” vem unindo forças em debates virtuais, colocando em uma mesma “live”, por exemplo, Lula, Ciro, Marina Silva e Witzel, o primeiro governador franco atirador do Brasil. Já se encontram no Congresso Nacional mais de 20 pedidos de impeachment esquentando a gaveta de Rodrigo Maia. Por outro lado, os militares fazem declarações que demonstram um certo racha interno, evidenciando uma ala pró governo, a todo custo, e outra cada vez mais disposta a aparecer como “força de paz” em caso de turbulência social; seja lá o que isso for. Bolsonaro, por sua vez, diz estar com “vontades” de emitir um decreto para que a população volte a trabalhar. Seria cansativo, entretanto, expor as outras tantas tonterias ditas no mesmo sentido desde o começo da crise até agora, início de maio. Basta abrir a primeira página dos jornais… de todos os dias. Do outro lado do mundo, Victor Orban, na Hungria, ganha o estatuto de plenos poderes no auge da crise sanitária e vai, a partir disso, governar por decretos. Um estudo sueco elaborado pelo Instituto de Variações da Democracia (entidade ligada à Universidade de Gotemburgo), diz que, pela primeira vez neste século, a maior parte dos países não é uma democracia e que a crise do coronavírus aponta para o aumento do apoio a novos líderes autoritários e populistas em escala global. O cenário, aqui, parece vantajoso para qualquer aventura.


Esse estado de exceção, entretanto, não é algo inventado durante a crise diagnosticada pelo coronavírus. No Brasil, sua versão 2.0 se estampa mais claramente no dia da vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018, condensando, ainda que apenas em palavras até aquele momento, todo um histórico desejoso de rompimento com o estado de direito, aliado a declarações assumidamente genocidas a grupos minoritários. Nessa curva da História brasileira, abre-se a porta para que os ânimos reprimidos de uma sociedade fascista venham à tona com maior liberdade. Abre-se a jaula dos leões famintos.


Desde o princípio, o presidente elencou setores “elimináveis” da sociedade. Suas declarações contra negros, povos indígenas, mulheres, homossexuais, entre outros, estão por aí registradas para confundir o futuro historiador que se questionará como teria alguém dito tais coisas antes de eleito. E que talvez por isso mesmo tenha sido eleito.


De tantos setores da sociedade aos quais Bolsonaro já destilou seu ódio ou indiferença, um deles em particular me chama a atenção durante a crise do corona: os velhos. Tendo já seu horizonte futuro encurtado pela pretensa necessidade de alinhamento das contas nacionais, a partir da implementação da reforma da previdência (promessa econômica que pode ser considerada a mais importante para a eleição de Bolsonaro), o presidente kamikaze e seu cavaleiro do apocalipse Paulo Guedes, conseguirão com a Covid-19 o que não alcançariam a partir das propostas que precisam de aprovação do Congresso: eliminar em massa os mais velhos. O que sempre esteve nas entrelinhas do corte de renda de quem já não deve trabalhar devido à idade é, justamente, o que, em última instância, desejam as mentes brilhantes do pragmatismo de mercado. A eliminação dos corpos não produtivos é o parágrafo indecente que agora, via estado de exceção, entra na reforma da previdência, sem precisar estar escrita. O totalitarismo moderno de Bolsonaro escolhe aos mais velhos como a categoria social eliminável por excelência, dentro da lógica imposta pelo necroliberalismo de Guedes, como nomeou o filósofo camaronês Achille Mbembe.


Todos os países, baixo a enxurrada de leis marciais e a normalização das mesmas, não visam outra coisa senão a melhor estratégia para sair da pandemia e recolocar-se à frente no processo de concorrência do mercado mundial, retomando os decadentes ritmos de crescimento econômico anteriormente planejados. Não se deve supor que das decisões dos estados europeus a respeito da quarentena responsável esteja transbordando zelo e benevolência com a própria população. O que se tem em comum por trás das diferentes decisões de como levar a quarentena em cada país é o desespero frente à corrida insana que se dará no retorno às possibilidades de funcionamento do mercado. Uns acreditam que sairão mais rápido da pandemia de um jeito, outros de outro.


Aqui no Brasil, Bolsonaro e seu governo seguem num caminho coerente. O presidente sabe o que propõe ao clamar a todos a volta ao trabalho. Nossa formação social é profundamente marcada pela violência de Estado. Seja direta, pelo tiro na testa do moleque favelado, ou indireta, via um “deixar morrer” travestido de requintada escola de pensamento econômico, sempre tivemos uma imensa coleção de mortes indecentes como regra de nosso cotidiano. Quando, então, o presidente tranquiliza a população dizendo que “só morrerão os mais velhos” ou pergunta “E daí?” para o aumento no número de mortes, ele apenas quer dizer que sempre foi assim. Não faria sentido parar agora. Com toda razão. Perante à histórica banalidade que apresentamos diante morte, por que esperar, logo dele, um homem do povo, uma reação diferente dessa? Não é novo ouvir, por exemplo, que pessoas estejam morrendo nas filas de hospitais. E não foi o coronavírus o responsável por todo esse horror.


Bolsonaro segue necrocoerente, com cálculo e razão. Apesar dos pronunciamentos aparentemente alucinados, pavimenta uma estrada certeira para um Brasil eficiente, prometido desde sua campanha eleitoral. Morrerão “só os mais velhos”.


São Paulo, 5 de maio de 2020


Autorretrato de Käthe Kollwitz, Berlim 1933