PAISAGENS DE PANDEMIA E AGRONEGÓCIO imagens passagens do livro



REVISTACOMANDO "Wow! The illustrations are amazing. There is an air of late Picasso or Matisse imprinting Grosz upon industrial agriculture. Great stuff!" - Rob Wallace


IMAGENS PAISAGENS DO LIVRO


A edição brasileira do Big Farms Make Big Flu (Rob Wallace), publicada em português com o título « Pandemia & Agronegócio – doenças infecciosas, capitalismo e ciência » (uma parceria entre os amigos da I.K., REVISTACOMANDO e Elefante), foi feita em plena quarentena, com todos os envolvidos em contato apenas pelas telas de telecomunicação.


Nesse processo, tradução, ilustração, revisão e diagramação do livro correram paralelas, orientadas pelas interações que definiram o todo a partir dos pontos de intersecção. Dessas interações, uma troca de e-mails em particular chama atenção. É a conversa entre o tradutor e os ilustradores do livro.


Sem ser possível ler antes as quase 500 páginas dos 39 artigos que compõem nosso pequeno monstro, os desenhos nasceram antes das sínteses das imagens que aparecem em cada uma das 7 partes do livro – descritas com astúcia e atenção pelo tradutor. Os ovos, nesse caso, vieram antes das galinhas.


As ilustrações em monotipia mostram as paisagens do agronegócio e os pesadelos da pandemia. Animais mortos, máquinas industriais, e para não ficar só na bad-trip-sci-fi (por orientação do próprio autor, que não quer deixar de estimular um outro mundo possível), algumas agroflorestas imaginárias. A sujeira da técnica sugere a textura do modo de produção capitalista, que produz os vírus e os atuais surtos globais como resíduos letais da mercadoria-bicho.


A seguir vocês podem ler trechos desses e-mails e ver os esboços dos desenhos, sendo meio de uma apresentação não ortodoxa da publicação que deve sair em breve.


IK

De: Allan Cob Para: Revista Comando

15 de abril de 2020, 20:23


“Esse é basicamente um livro sobre a evolução dos vírus e outros patógenos dentro das paisagens da geografia econômica capitalista, com foco na produção pecuária, principalmente de aves (frangos, gansos) e porcos.


As duas epígrafes que abrem o livro fazem na verdade bastante jus ao livro todo: Baudrillard falando sobre o acirramento na contradição entre as causas e os meios (no caso de « Pandemia & Agronegócio », a modernização do agronegócio levando ao desenvolvimento de patógenos mortais em escala global) e o imperativo da produtividade em um mundo cada vez mais precário e ameaçador, extraído de um diálogo do romance de ficção científica biopunk do Bacigalupi, chamado “Windup Girl”.


Parte 1

A parte um começa discutindo as origens geográficas dos novos surtos de gripe e problematiza a nova metodologia da Organização Mundial da Saúde (OMS) que classifica os novos vírus com nomes objetivos (tipo H1N1), nomenclaturas que apagam a origem geográfica do surto. Isso foi feito para lidar com a xenofobia crescente, que uma hora ou outra faria surgir uma "gripe chinesa". Ao mesmo tempo, o autor entra em detalhes sobre a produção agropecuária da China para demonstrar porque o sudeste do país tem se tornado uma espécie de celeiro para novos vírus, cada vez mais mortais. Esse fato, contudo, não advém dos hábitos alimentares exóticos chineses, como a xenofobia faz acreditar, mas da modernização da produção de aves e porcos por meio da instalação de linhas de produção que confinam animais consanguíneos e deprimidos imunologicamente, em um sistema de abate constante de animais cada vez mais jovens. Essa fórmula é ideal para o aprimoramento dos vírus, que estão evoluindo dentro dos aviários e celeiros. Esse modelo de agropecuária intensiva teve origem nos EUA nos anos 50, com o desenvolvimento de novas biotecnologias, mas hoje está presente no mundo todo. A liberalização do mercado chinês, principalmente nas ZEEs*, fez a modernização da pecuária chegar com força por lá, acirrando essas contradições, que estão presentes nos EUA, no México, no Brasil, etc.. Há denúncia de práticas sanitárias negligentes em diversas empresas. Ao final há um artigo que pergunta se os patógenos seriam capazes de viajar no tempo, já que eles tem demonstrado uma capacidade de adaptação que pode conter "soluções" mutagênicas advindas de outras gerações de vírus, colocadas em prática quando aquelas paisagens agrícolas ainda prevaleciam.


Parte 2

Esta parte faz referências mais diretas aos sistemas de produção agrícola alternativos (agroecologia, agrofloresta, as produção locais), enquanto aprofunda uma discussão sobre a relação entre agronegócio e o desenvolvimento de patógenos. O vírus mortal surge dentro do aviário e contamina bandos de galinhas criadas em quintais por pequenos produtores do entorno. Existiria uma contradição fundamental na produção capitalista intensiva que tenta controlar os patógenos, que sempre respondem com soluções evolutivas mais perigosas. O autor comenta sobre a domesticação dos patos na dinastia Han (existiria alguma arte funerária da dinastia Han retratando patos domésticos) e remonta os sistemas agropecuários chineses que se sucederam, com destaque para o Delta do Rio das Pérolas durante a dinastia Qing, quando surgem sistemas produtivos que combinam a produção de arroz, ameixa, bicho da seda, gansos, patos, carpas e outros peixes em arranjos paisagísticos, muito menos perigoso em termos patogênicos do que a agropecuária moderna que se instala na região de Guangdong, Shenzen e Hong Kong nos anos 1970 e que cria nichos ecológicos absolutamente vulneráveis em termos epidemiológicos. O governo central chinês sabe muito bem desses problemas, não faz muito para mitigar as causas e capitaliza as consequências aprimorando os sistemas de controle tecnológico-social sempre que uma epidemia nova surge. Há ainda o problema da urbanização acelerada e da destruição das áreas úmidas e florestais, o aumento do convívio com animais silvestre e animais criados, e enfim, entre a agroindústria e as periferias urbanas. O autor também critica o jogo duplo das multinacionais do agronegócio, subsidiadas pelo governo dos EUA, por exemplo, e absolutamente predatórias sobre os pequenos produtores que não conseguem competir com preços abaixo do mercado (dumping), o que fortaleceria a monopolização sobre o setor.


Parte 3

Aqui há um artigo sobre as condições extremas nas quais os patógenos são capazes de se reproduzir e se adaptar, uma reflexão sobre a capacidade dos patógenos de cooperar entre si, aumentando a suas possibilidades de ação quando compartilham um hospedeiro, um artigo sobre a dificuldade das análises científicas em responsabilizar o capitalismo global pelo surgimento de patógenos (não existem mais vírus e bactérias estritamente naturais) e as dificuldades dos governos em rastrear e controlar as origens de novos vírus. Nos EUA os pesquisadores não têm acesso aos dados de localização sobre a origem dos surtos, o governo protege a identidade dos produtores que criam as condições para novos surtos (isso é ainda mais estranho quando as pessoas tem os dados sobre a sua geolocalização divulgados com tanta facilidade durante a pandemia...). Nessa parte também tem um artigo extraordinário que pergunta se os nossos microbiomas – as bactérias que habitam o nosso corpo – seriam racializadas. Ele desenvolve essa questão de uma forma super crítica, demonstrando como, apesar das tentativas de desenvolvimento de remédios específicos para negros ou latinos, por exemplo, as pesquisas sobre microbiomas mostram que não há uma variação étnica, por si, das bactérias nos intestinos das pessoas, mas que, ao contrário, as condições étnicas, como ser identificado como negro, podem aumentar as possibilidades de doenças cardíacas, não por razões biológicas, mas por razões sociais, como o stress inerente as experiências de racismo, que se manifestam biologicamente como incremento de uma comorbidade e podem eventualmente impactar a saúde até o nível do microbioma. A biologia não é a causa, mas um efeito sobre corpos sujeitados por um sistema racista.


Parte 4

Essa parte discute novamente a dificuldade de abordar diretamente o problema das novas epidemias como originadas pelo capitalismo global. A partir de algumas mensagens diplomáticas divulgadas pelo Wikileaks, discute as estratégias pesadas da indústria dos organismos geneticamente modificados avançando sobre as paisagens agrícolas dos países como o Quênia ou a África do Sul em uma nova etapa de consolidação do monopólio de insumos e produtos no mundo rural. Comenta também algumas tentativas de reação a esta imposição aos transgênicos na França, como o grupo dos Ceifadores Voluntários – ativistas que destroem os campos de testes de transgênicos. Em seguida discute a indústria de melhoramento genético de animais que faz atrocidades em nome da produtividade, como galinhas que colocam um ovo por dia, e milhões de filhotes machos de galinhas poederias que são sacrificados anualmente porque não colocam ovos e sua carne não foi melhorada geneticamente para consumo, entre outros casos inacreditáveis do contrassenso da produção em larga escala de animais. Há um pequeno artigo sobre Florença: quando os lordes fugiram da peste, os trabalhadores têxteis controlaram a cidade por meses.

Parte final (5, 6 e 7)

[Aqui as descrições são encurtadas porque já tinham sido antecipadas por uma vídeo-chamada]


Há um artigo que ventila a ideia de que novos surtos por vírus mortais (principalmente aquele que terroristas poderiam utilizar) tem grande probabilidade de surgirem nos próprios laboratórios que foram criados para investigá-los e mapeá-los, não por causa de uma conspiração global ou pela mão de terroristas, mas porque tais laboratórios se proliferaram às centenas pelo mundo todo e o risco inerente ao contágio involuntário e acidental por parte dos seus próprios trabalhadores aumenta em uma velocidade enorme.


No artigo chamado Filtro de café há uma descrição de uma paisagem agroecológica no México que depende da cooperação e do mutualismo entre diversas espécies de formigas, pássaros, morcegos, lagartas e mariposas para controlar pragas como a ferrugem, a broca do café e cochonilha. O próprio pé de café, em seus diversos estágios, da floração à produção dos grãos, é bastante sugestivo imageticamente...


Alguns artigos apresentam uma discussão da ciência biológica, a evolução e o estímulo do ambiente para a conformação das espécies (a velha oposição Darwin x Lamarck). Ambas as trajetórias estão recheadas de exemplos, como os tentilhões de galápagos e as girafas do Lamarck. Os cisnes de Popper também estão presentes (há uma discussão sobre a falseabilidade das hipóteses: todos os cisnes são brancos até que alguém encontro um cisne negro). No meio tempo, a imagem de um cisne vermelho espreita...


Há por último um artigo sobre um surto de sarampo que aconteceu na Disney, chamado: Mickey Mouse tem sarampo. Essa daria uma ótima camiseta...”