SERÁ MESMO, VELHO JOE?

BRUNO XAVIER especial para IK


A tela A Rendição de Lord Cornwallis foi pintada entre 1819-1820, na época da reconstrução do Capitólio, destruído em 1814 pelos ingleses. Desde então, o edifício nunca mais havia sido invadido. [...] Para além do significado, o mais interessante é a razão pela qual este quadro de John Trumbull está pendurado no Capitólio: trata-se de "uma humilhação extraordinária para os americanos, seu maior desastre militar"

BRUNO XAVIER especial para IK


Com o intuito de preservar o que resta de aparência na democracia norte-americana, o presidente eleito Joe Biden, após a invasão do Capitólio no dia 06 de janeiro de 2021, disse em pronunciamento a todo o país:


“Let me be very clear. The scenes of chaos at the Capitol, do not reflect a true America, do not represent who we are.” [Deixe-me ser bastante claro. As cenas de caos no Capitólio, não representam quem nós somos.]


Será mesmo, velho Joe?


Como observado pelos colunistas do New York Times, no dia 08 de janeiro, enquanto os invasores desfilavam pelos salões internos do Capitólio, as pinturas históricas expostas nas paredes da sede do governo lutavam inertes contra a afirmação do novo presidente. Homens brancos, montados em seus cavalos, empunhando espadas e armas de fogo, saqueavam as terras do novo continente através do genocídio dos povos nativos. Tudo isso em paralelo à excrescência da escravidão negra, que lá durou 250 anos. Quase uma epifania -- no instante após o ato violento da invasão, tudo era paz. Em perfeita comunhão com os invasores, policiais sorriram para selfies e negociaram pacificamente a saída dos trumpistas. Ficou claro que as imagens gravadas nas telas e os “visitantes” do motim no Capitólio travavam batalhas muito semelhantes. Maravilhados, caminharam por entre os espaços à imagem e semelhança com suas próprias representações. Bisões, ursos, QAnons e masculinistas-tribalistas, como disse Rosana Pinheiro Machado, ornavam com perfeição os salões que sempre serviram de representação para essas mesmas violências.


Ao ver as chamas, o ministro francês nos Estados Unidos, Louis Sérurier, observou: “Nunca assisti a um espetáculo mais terrível e ao mesmo tempo mais magnífico”. A maior parte do interior estava completamente destruída. O calor era tão intenso que em alguns lugares as colunas de pedra e o chão se transformaram em cal e o telhado desabou.

ESPETÁCULO TERRÍVEL "À medida que as tropas britânicas avançavam para a Praça do Capitólio, eles encontraram tiros de franco-atiradores espalhados. Disparando vários tiros no edifício do Capitólio para desencorajar os atiradores, eles forçaram seu caminho para dentro com pouca dificuldade. Os homens ficaram impressionados com a grandiosidade do interior. Não era o que eles esperavam, mas tinha proporções imponentes, com tetos altos e colunas clássicas, americanizadas com entalhes de espigas de milho decorando os capitéis, enquanto os quartos bem proporcionados estavam cheios de móveis finos. Também se provou mais difícil de queimar do que eles esperavam - o telhado era de ferro e o chão e as paredes de pedra. As tropas se ocuparam empilhando todos os móveis, livros e papéis e, eventualmente, começaram um incêndio que iluminou o céu noturno sobre a cidade." [The US Capitol has been stormed before – when British troops burned Washington in 1814 O Capitólio Norteamericano já foi perturbado antes: quando as tropas britânicas incendiaram Washington em 1814]

Na parte externa do Capitólio, manifestantes brancos erigiram uma estrutura de madeira e, no meio, penduraram uma forca. O objetivo era ressoar as “strange fruits” que balançavam nos “álamos do galante Sul”, como Billie Holiday e Nina Simone nos alertam há décadas -- cenas infelizmente tão comuns na sequência dos linchamentos sofridos pelos negros durante a era do apartheid norte-americano. O recado estava claro: se quiserem se manter no que dizem ser a “nossa terra”, terão apenas o lugar dos faxineiros negros que de fato limparam o resultado de toda a contenda no dia do motim; se assim não for, os supremacistas brancos desejam, com o sangue que lhes escorre pelas bocas, a liberdade do justiçamento popular, para que resolvam na rua, impunemente, aquilo que o Estado, por “benevolência e filantropia”, vem tentando evitar. É isso que buscam Trump e seus seguidores. Não pode haver qualquer dúvida a respeito.


Isso não representa o que vocês de fato são, Joe?


Em 1831, na Philadelphia, uma horda insatisfeita com o resultado das eleições, arrasou o quarteirão da sede do governo com o intuito de retomar, no punho e nas armas, o poder governamental. Em 1861, após a vitória de Lincoln nas eleições presidenciais, os estados confederados do sul abriram fogo contra o norte em protesto aos resultados das urnas, dando início à Guerra Civil Americana (1861-1865). Contrário às ideias abolicionistas, o sul é massacrado e não logra levar a bandeira vermelha com a cruz azul para dentro do Capitólio...até o dia 06 de janeiro de 2021. Os anos que se seguiram após o fim da guerra, conhecidos como o período da Reconstrução, no qual os negros recém libertos da condição de cativos (1865) puderam almejar melhores condições de vida, foram logo interrompidos. O sul só aceitou o resultado da eleição de 1876 em troca de poderem imputar sobre os negros o terrorismo da era Jim Crow. O norte abre mão da inclusão social negra para consagrar a anexação dos estados do sul ao território nacional. Assim, a partir das Black Codes, o sul impôs sobre os recém libertos o extermínio, o linchamento, a prisão e, novamente, o trabalho forçado. Posto que já não eram cativos, os negros passaram a viver sob constantes ameaças de morte. Legalmente, esse processo durou até 1965, quando a luta pelo direito ao voto e pelos direitos civis joga uma pedra sobre o apartheid norte-americano que durara aproximadamente 100 anos. Na sequência de Malcolm X e Martin Luther King, entretanto, os Panteras Negras, Angela Davis, George Jackson e outros, entram em cena para lutar contra a forma de segregação que havia então substituído os horrores do Jim Crow: o encarceramento em massa. As décadas de 1970 e 1980, o auge das crises de reestruturação da economia capitalista, são marcadas pelo aumento exponencial da população negra dentro das prisões. Já o momento atual, com aproximadamente 2.300.000 detentos em todo o território (o maior contingente prisional do mundo), vem servindo de palco para o questionamento dessa condição. Os atuais abolicionistas, capitaneados pelo movimento Black Lives Matter, lideram esse processo que visa acabar com as prisões e com a violência policial. Dentro do Capitólio, os supremacistas brancos, incomodados com as mudanças recentes, não queriam outra coisa senão manter o abismo social entre negros e brancos, que teve início em 1619 com a chegada do primeiro navio negreiro nos portos da América do Norte.


Será mesmo, Joe, que a farra branca do início deste ano de 2021 no Capitólio não expõe quem vocês de fato são?

O atual momento, com a ascensão do Black Lives Matter e as lutas que visam o desmonte das estruturas racistas do Estado, carrega semelhanças com o período em que o sul dos EUA se ressentiu com a derrota na Guerra Civil. Naquele período, houve um processo de empobrecimento generalizado da população sulista que deu fundamento às práticas golpistas dos supremacistas brancos e à promoção da violência generalizada contra os negros. A fase mais aguda dos linchamentos nos EUA, por exemplo, entre 1870 e 1930, possui um fundo estrutural maior que o “mero” acontecimento punitivo do justiçamento popular -- superfície final da tentativa de extirpação do problema (DAVIS). O fim da Guerra Civil (1865) e a vitória do norte, impôs sobre o sul uma mudança brusca nas relações sociais já plenamente estabelecidas do latifúndio escravista das plantations. Do dia para a noite, não se pôde mais contar com a estrutura da força de trabalho baseada na escravidão. Além disso, a perda da guerra impôs sobre agricultores brancos mais pobres transformações profundas nas atividades agrícolas e um endividamento cada vez maior com os bancos, que entravam em cena para financiar colheitas ainda pouco mecanizadas e “salvar” os agricultores frente às safras perdidas nas secas históricas do país (MARTINS). Tudo isso levou à perda das propriedades e à substituição dessas terras por uma agricultura racionalizada imposta pela lógica industrial do norte. O norte usurpou dos brancos, portanto, não só o domínio que exerciam sobre os negros, mas também a segurança que lhes davam as terras. Lançados a um empobrecimento significativo, foram impelidos a uma numerosa migração para o oeste, mais particularmente para o estado da Califórnia (GILMORE). Esse processo pode ser muito bem observado com os “Okies”, no filme “As Vinhas da Ira”, do diretor John Ford e adaptação do livro homônimo de John Steinbeck.


De um lado, o empobrecimento dos brancos rebaixou-os à condição de vida daqueles que possuíam os atributos das categorias sociais inferiores -- a massa recém liberta e desprovida de meios para a sobrevivência econômica e de direitos sociais e políticos amplos. De outro, a conquista de alguns desses direitos, que visava uma certa equiparação jurídica entre negros e brancos, levou estes a um mal-estar social profundo. A pequena melhora de vida do negro não foi vista pela parcela branca da população como um avanço social, mas como uma piora relativa de sua própria vida. O sentimento dominante na população branca, portanto, a partir da emancipação da escravidão, foi de um alastramento virulento da degradação social de todos, imposto por uma “ideologia perigosa” que dizia não haver problema na miscigenação das raças. É justamente nesse período em que se reafirma o elo entre crise econômica e população negra, sendo esta considerada, a partir de então e até hoje, a culpada pelos problemas econômicos de todos. Desse ressentimento e da noção de culpa imputada sobre o negro, surge a implementação da prática do “separados, mas iguais”, que pressupunha igualdade jurídica, mas mantinha separadas as condutas e os espaços entre negros e brancos. O filme Separated, But Equal, com Sidney Poitier atuando como o advogado Thurgood Marshall do NAACP (Associação Nacional para o Desenvolvimento das Pessoas de Cor), descreve o imbróglio jurídico criado pelo sul que permitiu que crianças afro-americanas tivessem acesso a uma educação pública inferior a dos brancos. Mais recentemente, Marshall, com atuação de Chadwick Boseman, narra a participação do mesmo advogado (Thurgood Marshall) na defesa de um réu negro sob a falsa acusação de estupro.


E não é isso que os EUA de fato são? Apenas a perpetuação, sob diversos formatos, de um capitalismo racializado desde o dia 1 de sua história?

O ressentimento vivenciado pela população branca após a abolição da escravidão nos EUA se assemelha ao que os invasores do dia 06 podem estar sentindo. A questão negra foi a principal pauta em 2020 logo depois da COVID-19, que acabou se mostrando, por sua vez, também um vírus racista; integrantes de movimentos de base, que lutam pela igualdade racial e contra a violência de Estado sobre comunidades afro-americanas, vêm ganhando espaço na política institucional e foram responsáveis por vitórias significativas nessas últimas eleições; a crise do coronavírus elevou sobremaneira a taxa de desemprego no país e o empobrecimento do norte-americano médio branco (BOTELHO), transformando o “outro” em seu semelhante. É contra esse ajuste de contas histórico, ou em revolta à equiparação social via empobrecimento geral, que a invasão da supremacia branca no Capitólio deve ser entendida.


A questão racial, portanto, está presente em todos os pleitos eleitorais norte-americanos desde pelo menos 1861. E com Trump concorrendo em 2017 e 2020, não foi diferente. Já nos primeiros dias de sua presidência, Donald Trump inflamou os anseios nacionalistas e supremacistas brancos. Logo após sua posse em 2017, assinou a “Muslim ban”, uma ordem executiva fechando as fronteiras dos EUA para sete países de origem predominantemente muçulmana. Além disso, suspendeu indefinidamente a entrada de refugiados sírios no país. Chamou os neonazistas de Charlottesville de “gente muito boa” e se aliou aos que defendiam os monumentos dos estados confederados do sul, assumidamente anti-abolicionistas. Promoveu o fechamento da fronteira com o México para os latino-americanos requerentes de asilo, além de separar pais e filhos que chegavam às divisas, colocando-os em gaiolas. Ele se referiu ao Haiti e às nações africanas como “lugares de merda”. Autorizou a violência dos agentes federais e militares contra os manifestantes do Black Lives Matter nos protestos em resposta ao brutal assassinato de George Floyd, chamando-os de “símbolos do ódio”. E, por fim, no último ano de sua presidência, estando prestes a se reeleger (dada a porcentagem de aceitação de seu governo e os baixos níveis de desemprego antes da atual crise, comparados às últimas décadas), apelidou de “vírus chinês” a COVID-19 e enfrentou-a da forma mais irresponsável possível, matando milhares de norte-americanos, especialmente negros e latinos. Não fosse a COVID-19, ele teria se reeleito. E o faria por causa de suas falas e de seus atos. E não apesar deles.


No Capitólio, tudo que é ordinário é "encerado, lustrado, belo", e neste momento quatro personagens "super admirados" se dão conta da onde estão. Dois deles carregam bandeiras: "eles carregam o patriotismo nas mãos dentro de um lugar histórico da Nação" -- diz Saul Loeb, o fotojornalista que capturou estas imagens. "O Capitólio é um dos edifícios mais bem protegidos em Washington [...] na Cúpula, neste momento, com a pandemia, não há ninguém além dos eleitos do Congresso, seus funcionários não estão lá, nem jornalistas [...] e de repente lá havia centenas de manifestantes fazendo o que bem entendessem, de pé em cima dos bancos, tirando fotos das estátuas, barulhentos e perturbadores". [Invasion du Capitole américain : quand deux moments historiques se côtoient Invasão do Capitólio americano: quando dos momentos históricos se encontram]

Não podemos nos deixar confundir pela estética dominante dos “conquistadores” dentro do Capitólio naquele 06 de janeiro de 2021. Os “tribalistas masculinistas”, que evocam esteticamente a força gutural viking, ou uma aproximação com o que acreditam ter de mais selvagem no humano, estão em pleno 2021 e apenas se utilizam dessa estética para impor sobre esse mundo os desejos que conhecem. Enquanto apontamos a eles como alucinados e perturbados mentais, poderíamos, ao invés, levantar a seguinte hipótese: eles não ficariam plenamente satisfeitos se houvesse um retorno aos EUA pré-abolição? A resposta, muito provavelmente, é sim. É desse período da história -- em que o negro era escravizado, o indígena livremente assassinado e a mulher mantida sob a condição cativa do marido -- de que sentem falta. Se se movem pelas notícias falsas propagadas nas redes sociais de Donald Trump (banido aos 45° do segundo tempo, sem nunca ter levado advertências prévias) ou por informações verdadeiras utilizadas de maneiras escusas, não importa. A real questão não está na veracidade ou não daquilo que usam para justificar os seus atos, mas no que resgatam dos porões história com o objetivo de manter a estrutura de dominação do branco sobre o negro. O devir negro do mundo bate à porta.


Caro Joe, this is America :

REFERÊNCIAS


ALMEIDA, Silvio. Mundo de racismo, pandemia e violência é o ambiente natural de Trump e Bolsonaro.

Folha de São Paulo, 07/01/2021.

AMPARO, Thiago. Isto são os EUA. Folha de São Paulo, 10/01/2021.

BOTELHO, Maurilio. Maurílio Botelho. Não vai passar: crise e desemprego nos EUA. IK, 2020.

CROUSE, WESTBROOK and DOSANI. Stop Pretending ‘This Is Not Who We Are’. New York Times, 08/01/2021.

DAVIS, Angela. Estarão as prisões obsoletas? Rio de Janeiro: Difel, 2018.

GAY, Roxane . We’ve seen the ugly truth about America. The New York Times, 07/01/2021.

GILMORE, Ruth Wilson. Golden Gulag. University of California Press. Los Angeles, 2007.

HARCOURT, Bernard E. The Fight Ahead . Boston Review, 06/01/2021

NINA SIMONE. Strange Fruit [A letra dessa música narra uma foto de dois afro-americanos pendurados nas árvores, enforcados, após linchamento feito sob falsas acusações]

MARTINS, José de Souza. Linchamentos: a justiça popular no Brasil. Rio de Janeiro: Contexto, 2015.

SENRA, Ricardo . 'Tribalismo masculino': a seita violenta ligada ao 'viking' em invasão ao Congresso dos EUA UOL, 07/01/2021.

SNYDER, Thimothy . The American Abyss. The New York Times Magazine, 09/01/2021.


IMAGEM Saoul Loeb - AFP

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