OUTRO FIM DO MUNDO É POSSÍVEL


2&3DORM


O artigo abaixo foi escrito em resposta ao convite feito pela revista Disentir,do México. O artigo inteiro pode ser encontrado aqui.


OUTRO FIM DO MUNDO É POSSÍVEL


Burning down the house

É o ano de 2020 e a humanidade queima sobre uma pilha de lixo criada por ela mesmo[1]. A situação não parece se distanciar muito dos quadros retratados há 500 anos atrás pelos pintores flamencos como Pieter Bruegel ou Hieronymus Bosch, porém, todas as alegorias da catástrofe ficam pequenas ante o profundo sentimento de desespero que caracteriza a civilização .... A cotidianidade nos encurrala, o que resta fazer?

Um dos maiores descobrimentos teóricos da modernidade, junto com a teoria da evolução ou da relatividade, foi o descobrimento do inconsciente. Tal como sonhamos de maneira incontrolável, assim também fazemos e dizemos coisas em nossa vida cotidiana que não determinamos ou controlamos conscientemente. Estas ocorrem como resultado de mecanismos que operam em um nível mais profundo, ao qual nos é difícil de acessar de maneira intelectual ou racional. Nada pode enxergar a própria nuca, nem morder os próprios dentes.

As teorias sobre o inconsciente se desenvolveram no mesmo período que as teorias sobre a alienação e a ideologia, todas correspondem a uma mesma época de produção e reprodução social. O mundo estava se transformando rapidamente e a narrativa do progresso, obcecada por suas infraestruturas e gadgets, parecia não estar muito interessada em como e nem por que. As coisas avançavam ao seu próprio ritmo.

Onde a psicanálise viu um comportamento neurótico preso a uma falsa consciência, a crítica da economia política – viu um “sujeito automático” programado para a sua autodestruição. Certamente, isso não quer dizer que o inconsciente e o fetichismo da mercadoria[2] sejam equivalentes. O fato é que, o último é manifestação do primeiro. Uma característica que compartilham é que ambos tem suas próprias “regras”, que vão muito além do que qualquer um de nós é capaz de controlar conscientemente[3].

É esta a inércia produzida pela montanha de lixo que nós estamos se sacrificando. Desde quando? Parece que desde os tempos imemoriáveis. Quase não conseguimos distinguir desde quando sofremos tanto, e essa é uma prerrogativa para quem teme a transformação. “A guerra é parte da natureza humana” dizem alguns com total naturalidade, enquanto desprezam como um resíduo “primitivo” o que as culturas ao redor de todo o mundo veneram a terra como uma mãe. Logo, ao constatar a pouca diferença que existe entre os contemporâneos de Gilgamesh e a brutalidade militarizada, os fanáticos, os exploradores e os explorados do século XXI, resulta tentador falar sobre uma condição “transhistórica” da humanidade, da natureza humana. O terror somente aumenta quando comprovamos que esta sentença se repete também ao longo de nossas próprias biografias: quando fomos realmente donxs de nosso próprio destino? O mal-estar que provoca a mercantilização da realidade, entretanto, não é endêmico a nossa espécie.

A vida de todxs está permanentemente sendo roubada por poucos. A história nos entregou provas suficientes de como e por que, assim como pistas claras sobre como evita-lo. Por que então, uma parte de nós mesmxs se recusa a aceitar algo que em outros tempos era sentido comum como, por exemplo, que somos parte de nosso ambiente? Por medo, entre outras coisas. Por medo a perder sua “propriedade”, seus “privilégios”, suas “razões”. O Ego Patriarcal e mercantilista de nossa civilização está arraigado a uma série de imagens e ideias abstratas que garantem sua dominação concreta; sente um medo profundo de soltar as identificações, ainda quando são falsas e/ou autodestrutivas. Essas imagens e ideias se defendem pela força das armas ou pelas razões de Estado[4].

Enfrentamos a grandeza oceânica “do que não sabem” – quer dizer, o que está além de suas próprias identificações, conhecimento ou propriedade – os cretinos que detém o poder correm desesperados em direção ao nada e nos arrastam com eles. O único que importa é fugir. Se pode ser em um iate ou em uma nave espacial, tanto faz.

No mundo de ponta cabeça, essa fuga aparece nas ciências e na política internacional como uma institucionalização da “consciência de catástrofe”. Não por causalidade, desde o final dos anos sessenta, se multiplicaram os tratados e conferencias consagradas a regular a “atividade humana” sobre o meio ambiente: durante esta época começaram a observar as primeiras catástrofes em escala planetária associadas à produção industrial transnacionalizada[5].

De fato, embora os efeitos devastadores da empresa capitalista vem sendo padecidos pelas sociedades que lhe sobreviveram desde seu alvorecer, o seu reconhecimento se manifesta hoje somente como uma extensão do circo dos burocratas e ativistas da “sustentabilidade”, enquanto as catástrofes se sucedem uma atrás da outra.


Desde a Conferência de Estocolmo em 1975 até a COP25 de 2019, cada um desses eventos se esgotam em uma recombinação de declarações de princípios, agendas e planos de ação que pretendem domesticas a irracionalidade da produção e do consumo capitalistas dentro do Estado, dentro da política que a faz possível.

A causa pelo “desenvolvimento sustentável”[6] nos quer fazer pagar os custos da reconversão da industrias “fontes de energias renováveis”, ou suas práticas social e ambientalmente “responsáveis”, sem colocar fim a apropriação sistemática dos exploradores da potência das forças naturais (e humanas). Em outras palavras, submetendo mais uma vez as necessidades humanas e as condições da vida planetária as necessidades do sujeito automático.

Podemos observar esse último ao nível da cotidiana, nas incessantes transformações do valor que, em sua corrida para aumentar-se a si mesmo, arrasa tudo em seu caminho[7]. O que, em termos espaciais e sociológicos, se conhece como gentrificação, se tornou uma das manifestações mais flagrantes desse processo para os habitantes das áreas urbanizadas do mundo[8]. Mas o certo é que somente quem segue os passos da moral culpabilizante da época – essa que obriga pagar pelo pecado da existência a través da obrigação de trabalhar, de consumir, de militar – estão dispostos a pagar esse preço.

Seguindo uma lógica que somente aprofunda as contradições, a humanidade desesperada inventa novos pedestais que a fazem saltar para o vazio:

Estamos a ponto de conectar o mundo físico à internet: o planeta e tudo que está sobre ele, se tornarão coisas na “Internet das coisas”. E não apenas páginas web sobre as coisas. O que quero dizer é que, literalmente, todas as coisas que encontramos em nossa vida cotidiana, as máquinas e os eletrodomésticos que usamos em nossos trabalhos e em nossa casa, os edifícios em que vivemos e os carros em que nos deslocamos, e incluso nós mesmos, nos tornaremos parte da “Internet das coisas”[9].

Os promotores do desenvolvimento sustentável celebram hoje as possibilidades abertas pela microeletrônica. Um fantasma ronda as conferencias do tecnocratas verdes: a planificação racional. A expectativa é que com a total existência da natureza desdobrada em internet, seja possível gerir um uso eficiente dos “recursos naturais”, resolver problemas de deslocamento de mercadorias, ajusta a “brecha” entre a oferta e a demanda, etc. Emerge outra relação de sociedade com seu entorno caracterizada pela planificação espacial, o controle dos fluxos (fluxos de mão de obra, de capitais, de automóveis, de energia, de matérias primas, etc.) e suas conexões.

Ainda que desde do final do século XIX se saiba que a revolução industrial está por detrás da crescente degradação do meio ambiente, hoje, em uma nova aplicação desesperada do princípio deus ex machine, se espera que seja outra revolução industrial que nos salve. A consigna é a de sempre “o desenvolvimento das forças produtivas os farão livres”.

Para além da borda do precipício

De uma forma ou de outra, todos os observatórios concordam que a relação da nossa sociedade com a natureza está no centro do conflito. É a partir desse ponto que a ideia do antropoceno seja um acordo tácito entre os especialistas.


De onde provém o conflito com o nosso ambiente? Essa também não é uma preocupação vertinosamente antiga? As condições mudaram consideravelmente no desenvolvimento dos últimos 10.000 anos; a civilização industrial não é a primeira que altera drasticamente as condições do seu ambiente. Na antiguidade se registraram intervenções humanas em grande escala. Em alguns casos proveitosas, como a utilização do rio Nilo; em outras com um efeito muito mais negativo, como a desflorestação da Grécia. Acredita-se que o milho seja um desenvolvimento da agricultura mesoamericana alcançada como resultado de milhares de anos de “manipulação genética”[10].


Mas os efeitos da humanidade sobre seu ambiente, ainda que significativos, não parecem ter alcançado os níveis de autodestruição que caracteriza nossa civilização industrial. Nesse sentido, o que é transhistórico não é sua suposta “condição de praga” (seu “mal-estar”, sua “natureza” violenta, a “superioridade” do macho, etc.), mas o metabolismo entre os humanos e a natureza, posto que, como organismos, devemos entrar em uma interação com o ambiente para reproduzir nossas vidas.


O que caracteriza os humanos é que, ao se (re)produzirem, se liberam da “primeira natureza” – opondo-se a ela, mas sem deixar de forma parte integral dela – para nascer como seres sociais de uma “segunda natureza”. Assim, sua atividade produtiva e reprodutiva, ao que os leva a estabelecer vínculos entre si e com seu ambiente, se constitui e se apresenta frente a eles como um espaço especifico de relações: história congelada que aparece como (segunda) natureza.

Sob a dominação capitalista, a segunda natureza se constitui como um enorme dispositivo mortífero de autovalorização. Ao reorganizar radicalmente o metabolismo dos humanos e da natureza, desde a perspectiva da transformação do trabalho morto em dinheiro[11], o capitalismo transforma e aprofunda as contradições que surgiram das modificações sociais que a natureza recebe e internaliza. Assim, da transformação do mundo em mundo da economia (proletarização global e mundialização do mercado), passamos rapidamente dos efeitos imediatos, em términos microclimáticos aos efeitos de grande impacto de escala global. É por isso que alguns cientistas não falam somente de antropoceno, mas também de capitaloceno.

A inércia do sujeito automático que transforma todo o planeta e toda a atividade sobre ele em dinheiro, não conhece limites geográficos ou políticos, somente limitações técnicas. A “Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul Americana” (IIRSA) é uma constatação disso.


No plano de projetos da IIRSA, cujo o comitê técnico conta entre seus membros o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), se estrutura em torno de dez eixos, franjas multinacionais no território, e implica em um novo planejamento territorial que se sobrepõem a territorialidade política imposta pelo Estado nação. A IIRSA está planejada e traçada desde o centro do continente até as costas, subordinando os países sul americanos ao Brasil por uma parte, e toda a região as transnacionais por outra. Que fique claro, ainda que a IIRSA corroa a soberania do Estado nação, isso não implica sua desaparição; ou melhor, a territorialidade sobre a qual projeta seu domínio se subordina ao mercado mundial através da mediação entre organismos como o BID ou o FMI.


Marx entendeu o caráter de roubo inerente ao desenvolvimento das forças produtivas capitalistas através do estudo sobre os últimos avanços das ciências naturais da sua época.


As investigações do químico Justus Von Liebig em torno da agricultura e dos fertilizantes minerais, e de Carl Fraas a propósito da mudança climática e do desmatamento, entre outras, o mostraram que o modo de produção capitalista é um monstro insaciável ao qual não importa se uma grande parte do planeta se torne inabitável enquanto a acumulação de capital (valor que se valoriza) seja possível.

E todo o progresso da agricultura capitalista é não só um progresso na arte de roubar o trabalhador como simultaneamente na arte de roubar o solo; cada progresso na subida da sua fertilidade por um dado prazo de tempo é, simultaneamente, um progresso na ruína das fontes duradoras desta fertilidade. [...] A produção capitalista, portanto, apenas desenvolve a técnica e combinação do processo social de produção minando, simultaneamente, as fontes manantes de toda a riqueza: a terra e o trabalhador [12].

O desenvolvimento das forças produtivas, que deriva da concorrência entre capitalistas, compelidos a produzir mais em menos tempo para sobreviver na selva do valor, foi alimentada durante a durante a segunda revolução industrial pelo consumo de recursos energéticos como petróleo e gás. Isso levou tanto ao esgotamento desses recursos como a alteração do clima global. A humanidade e a natureza são saqueadas por um poder que a própria atividade fetichista de produção e reprodução social colocou em marcha, mas que, como no pior pesadelo, falha em reconhecer como parte de si mesmo [13].


O dinheiro exerce um poderoso efeito de encantamento sobre a humanidade. A sua força é tal que, apesar de todas as previsões e medições exatas da magnitude da catástrofe que paira sobre nós, nada parece afetar seu ciclo reprodutivo. O que é produzido pelos humanos, se volta contra os humanos. Disso tampouco escapam os que atuam como exploradores do trabalho e parecem se beneficiar da ordem das coisas. Tal como os proletários, estes são meros funcionários do capital, administradores privilegiados do feitiço que transforma tudo em dinheiro e lixo.

A última versão desse feitiço, a revolução industrial da microeletrônica, sentenciou a morte das relações sociais de produção capitalista. A sofisticação atual da maquinaria abre a possiblidade de criação de grandes massas de valor com uma mínima incorporação de trabalho abstrato humano no processo de produção, no entanto, essas massas de valor tem problemas para serem realizadas na troca. O capital já não possui mais novos mercados onde descarregar sua crescente massa de mercadorias, e nem o barateamento das mesmas consegue fazer com que uma população empobrecida – expulsa estruturalmente da relação capital-trabalho – as compre. Daí sua fuga para acumulação fictícia onde o dinheiro aumenta a si mesmo mediante a atividade mágica da especulação.

Porém, o capital fictício corre o risco de desaparecer se não se fixa. Por isso invade o planeta todo criando lastros que devem servir ao processo de valorização. Nesse sentido, a IIRSA é uma das respostas do capitalismo a implosão da civilização mercantil que surge de um capital estruturalmente improdutivo. O novo planejamento territorial proposto em prol do roubo, permite a produção do espaço enquanto mercadoria (o capital se fixa na terra em forma de pontes, termoelétricas, rodovias, etc.) demandando assim a função de consumo (e em geral a função de troca) de parte dos capitais nacionais e internacionais.

Tradicionalmente se tem falado de dois momentos na história da produção do espaço: o momento em que a natureza domina o espaço social[14] e o momento em que a natureza “localizada” – despedaçada em “recursos naturais”, “áreas protegidas”, etc.-, retrocede. Talvez com o desenvolvimento da crise sócio-ambiental planetária poderia falar-se de outro momento em que a natureza avança fazendo estourar as estruturas e processos que pretendem domina-la.

A humanidade aprenderá a voar

Os efeitos que tiveram estas tentativas de atualização da estratégia econômica sobre o território dominado pelo Estado chileno, em todas as suas diferentes escalas e versões anteriores, pode servir, para quem estiver sem provas ou evidências sobre a catástrofe, como uma flagrante constatação do poder da empresa capitalista.

O território chileno, com sua flora e fauna brutalmente saqueadas e sua população humana condenada às formas mais extremas e violentas da ditadura do dinheiro, se transformou em um paradigma dos desertos tóxicos deixados pelo caminho da civilização industrial[15].


Desde o dia 18 de outubro de 2019, contudo, seu protagonismo não se deve somente a devastação e a destruição dos experimentos políticos e econômicos, mas também a que se transformou em um terreno de disputa direta entre os que trabalham para manter a inércia autodestrutiva que caracteriza o mundo do dinheiro e aqueles que despertaram para acionar o freio de emergência.

O povo chileno, impulsionado por uma juventude que perdeu o medo[16], está realizando um experimento social de proporções nunca antes vividas. Os eventos que se tem registrado nos últimos meses podem ser relacionados com revoltas como a de 1957[17] e outras que aconteceram no final século XIX e início do XX, mas com dificuldade alcançam a ser comparadas em relação a magnitude e a intensidade. A escala global da revolta nos convida a lembrar as Comunas e o Maio de 1968 na França[18], e ainda assim resultam de vagas comparações.


Contudo, as referências históricas não são fantasiosas. Na mesma medida a permanente reorganização imposta pela economia sobre o território, fez com que surgisse uma nova forma de contestação firmemente enraizada na imediatez da vida cotidiana. A revolta chilena, que foi em sua origem totalmente espontânea, descentralizada e selvagem (em sentido da ausência total de líderes, dirigentes e ideologias), vem se articulando com o tempo em torno ao que se conhece como “Assembleias Territoriais”, em sua maioria também qualificadas como “autônomas”.

Essas assembleias territoriais operam transformando diretamente o espaço social e mental. Se organizam a partir de um novo uso do tempo, o que irrompeu catarticamente essas primeiras semanas de insurreição. “Não voltaremos para a normalidade porque a normalidade era o problema”, foi uma das respostas do povo insurgente ao primeiro intento de manipulação de midiática do Poder.

As assembleias estão criando novas relações, que não estão baseadas no interesse monetário, onde haviam uma comunidade completamente segregada pelas obrigações que impõe a escravidão capitalista (o trabalho, o coletivo ou partido, a indústria cultural, as obrigações burocráticas, todas as formas de consumo aos quais reduziram a vida cotidiana, etc.). Em outubro, a rotina foi interrompida radicalmente para abrir caminho a um universo de possibilidades que antes estavam marginais ao alcance de nossa consciência ordinária, talvez antes, completamente fora vista. A insurreição chilena transformou e está transformando (intermitente ou momentaneamente) a vida das pessoas no seu sentido mais concreto.

Se os gestores e os defensores da máquina de exploração se apoiam na política como parte central de sua estratégia de dominação, o gesto original das assembleias territoriais - antes da repressão psicológica que significa o proselitismo político dentro destas organizações espontâneas, e mais além da redução da luta ao espetáculo das eleições e a divisão imposta pelos operários do Poder entre aprovar ou rechaçar[19] - foi e continua sendo se manter por fora dos partidos, organizações políticas e ideológicas em geral. A primeira característica dessas assembleias é, justamente, que o vínculo é espacial, concreto e experiencial, não é ideológico. Nisso reside a sua fortaleza. As assembleias tem a possibilidade de alterar seu território porque esse lugar, em termos concretos, lhes pertence. Sua atividade faz emergir um conflito latente: esta “propriedade” nada tem a haver com o sentido abstrato de propriedade que defende o Estado de Direito Burguês e a democracia associada a ele.

O conflito, como dizíamos, é disfarçado pelo Poder através de uma simples distinção entre esquerda e direita. A divisão que se cria é profunda (separa o que aspira a estar junto), e expressa com uma violência cada vez mais generalizada entre dois bandos criados verticalmente. O clima de guerra que se apodera da vida é real, mas somente em certo sentido. A verdadeira guerra que se libera é completamente assimétrica quando um dos bandos conta com toda uma estrutura estatal, militar, jurídica e mediática para gerir seu monopólio da violência e garantir a vitória frente a um inimigo que se defende no ponto de esperança, de solidariedade, autogestão e criatividade.

“Esta revolución me devolvió las ganas de vivir y no es chiste”. Declarava outra frase que circulou amplamente nos primeiros dias de revolta. Essa energia inicial, essa faísca de vitalidade orgânica é onde reside o potencial de transformação do movimento, que vai do consciente ao inconsciente e vice-versa, abrindo os olhos ali onde o Estado tenta os fechar apontando suas armas.


A voracidade do dinheiro sempre opera assim, dividindo, deslocando e aniquilando geográfica e psicologicamente, material e espiritualmente, massas cada vez maiores de humanos. Durante o ano de 2018 o número oficial de refugiados que escaparam de diferentes catástrofes humanas ultrapassou a 70 milhões de pessoas. E isto somente contabilizando os deslocamentos ocasionados por guerras, genocídios e outros tipos de migrações forçadas que caracterizam o terceiro mundo (Honduras, Sudão do Sul, Síria, Bangladesh, etc.). A versão atualizada desses dados, somando os números oficiais de refugiados pelas mudanças climáticas[20], é possível que ultrapasse 100 milhões de pessoas. Mas se também levar em consideração os refugiados produzidos pelas cidades em gentrificação ou em regimes rurais produto da devastação originada pela industrialização da natureza (madeireiras, pesca, mineradoras, empresas elétricas, etc.), os números resultam difícil assimilação devido a sua magnitude.

Uma onda de contestação contra esse empobrecimento programado se expande pelo mundo. Basta somente o anuncio de uma subida do preço do transporte público (Chile), da taxa de combustível (França), do preço do pão (Sudão), etc., para que aflore um impulso de ruptura com os resultados mortais da produção capitalista. A partir daí que os eventos recentes no Chile assumam uma relevância internacional e que a possibilidade que estão abrindo xs insurgentes do mundo esteja conectada com sua capacidade para transformar esta onda de contestação em um movimento internacional que dispute em escala local e da vida cotidiana a hegemonia global e abstrata do dinheiro[21]. Esta é a única saída ao deja vu ao qual temos sidos condenadxs pela inercia de nossos atos.


Não existe nenhuma garantia de êxito, mas uma parte de nós está disposta a tentar. Durante a corrida desesperada do progresso temos perdido a consciência de que já passamos a beira da estrada e corremos no ar sobre o precipício. Para a humanidade se salvar, deverá a aprender a voar, já não mais com máquinas mas sim com seu próprio corpo recuperado, o que exige mobilização de todas suas possibilidades.

O povo chileno e os outros territórios insurgentes estão um esforço para voar, ensaiando uma vida que não tenha uma receita definitiva e muito menos respostas pré-fabricadas. O trabalho que se faz, é como de um parto.


O nascimento não é um ato; é um processo. O fim da vida é nascer plenamente, ainda que sua tragédia seja que a maioria de nós morremos antes ter nascidos assim. Viver é nascer a cada instante. A morte é produzida quando esse nascimento se detém. Fisiologicamente, nosso sistema celular está em um processo de contínuo nascimento; psicologicamente, no entanto, a maioria de nós desejamos nascer em um determinado momento. Alguns nascem mortos; seguem vivendo fisiologicamente e talvez, mentalmente, sua aspiração seja regressar ao seio materno, a terra, a obscuridade, a morte; estão loucos ou muito próximos de estar. Outros tantos vão um pouco mais distante pelo caminho da vida. Apesar disso, não podem romper com o cordão umbilical do todo, como já dissemos; permanecem simbolicamente, ligados a mãe, ao pai, a família, a reza, o Estado, a posição social, o dinheiro, os deuses, etc.; nunca surgem plenamente como eles mesmos e, em consequência, nunca nascem plenamente[22].

JM y RB, 2&3 Dorm

Março 2020

[1] A temperatura média global agora é 1 Cº mais alta do que no começo do século passado. Assim, a medida que certas partes da terra secam, os incêndios aumentam em probabilidade e intensidade. Durante o ano de 2019, queimaram mais de 20 milhões de hectares, somente considerando os mega incêndios da Amazônia e da Austrália. O mundo literalmente está se transformando em um inferno com zonas cobertas por chamas permanentes. [2] “O sujeito não é o homem mas a mercadoria enquanto sujeito automático. Os processos vitais dos homens ficam abandonados a gestão totalitária e inapelável de um mecanismo cego que eles alimentam mas não o controlam. A mercadoria separa a produção do consumo e subordina a utilidade ou nocividade concretas de cada coisa a questão de quanto trabalho abstrato, representado pelo dinheiro, seja capaz de realizar no mercado”. Anselm Jappe, “As sutilezas metafísicas da mercadoria”, disponível: https://lapeste.org/2016/12/anselm-jappe-las-sutilezas-metafisicas-de-la-mercancia/ [3] Na teoria psicanalítica o inconsciente não tem um lugar negativo. É por esta razão que o processo terapêutico que propõe envolver como grande motivo tornar consciente o inconsciente, transformar o Id em Ego, algo que poderia ser resumido como um profundo sentido de ter consciência. Não porque se tornam evidentes os conflitos ocultos no inconsciente, mas porque o inconsciente possui uma quantidade de informação que o conteúdo fictício, enganoso e ideológico da consciência é incapaz de reconhecer por si só, limitando sua própria percepção da realidade. [4] Para maiores informações, consultar: “Por la razón o la fuerza”, s.f En Wikipedia disponível aqui; Julio Cortés, “La Ley de Seguridad del Estado como instrumento de represión política” 2020. Disponível aqui. [5] Por exemplo, a de Torrey Canyon en 1967. O catastrófico naufrágio desse navio petroleiro, propriedade da liberiana Barracuda Tanker Corporation – uma subsidiária da Union Oil Company of California sob o controle da Britsh Petroleum -, introduziu ao mundo com a devastação de vazamentos transnacionais de 164 milhões de litros de petróleo nas costas da Inglaterra e da França. Todas as tentativas de despoluir o vazamento provaram ser inúteis. Tentaram remover o petróleo com napalm, também tentaram afundar com explosivos, logo buscaram lavar com dezenas de milhares de toneladas de detergente, e com isso intensificaram os níveis de toxidade no ecossistema marinho. “Nesse momento pensávamos que estávamos fazendo um bom trabalho porque o petróleo estava desaparecendo” recorda Gerald Boalch - biólogo marinho da Marine Biological Association do Reino Unido, que esteve envolvido com o acontecimento -, “mas alguns colegas fizeram testes de laboratório e se deram conta que o petróleo estava se tornando cada vez mais tóxico para a vida marinha, porque se tornou mais solúvel e por isso mais organismos podiam incorporar em seus sistemas”. [6] Apresentado pela primeira vez na conferência do Rio de Janeiro em 1992.

[7] Ver: Karl Marx, O capital. Livro I, capítulo VI (inédito).

[8] Por isso se fala há alguns anos de “urbanização planetária”.

[9] John Barret, The Internet of Things: Dr. John Barret at TEDxCIT [video], 2012. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QaTIt1C5R-M

[10] A manipulação genética não deveria ser algo para se opor. A vida dos humanos no planeta terra contou com isto como uma de suas ferramentas de adaptação. Hoje, contudo, produto do avanço das ciências e da tecnologia, não apenas um processo que se realizava ao longo de vários anos de tentativas e erros (no caso do milho foram pelo menos 9.000 anos) que foi reduzido a um par, mas também foram abertos novos campos de experimentação que permitem a recombinação de espécies distintas. Isso introduz um fator de risco e incerteza que sim, é discutível, não somente em termos morais e de saúde, mas também quanto ao propósito desse desenvolvimento e de seus meios tecnológicos e legais (patentes, propriedade privada) que o fazem possível.

[11] “O capital é trabalho morto, que, como um vampiro, vive apenas da sucção de trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga. O tempo durante o qual o trabalhador trabalha é o tempo durante o qual o capitalista consome a força de trabalho que comprou do trabalhador. Se este consome seu tempo disponível para si mesmo, ele furta o capitalista.” (Karl Marx. O capital, Livro I. p. 307. São Paulo, Boitempo, 2013). O mesmo pode ser dito de outro modo, somente na sociedade capitalista o trabalho vivo ao produzir mercadorias, se transforma em trabalho morto representado na forma de riqueza abstrata (dinheiro).

[12] Karl Marx, O capital – livro I: Quarta Seção: A produção da mais-valia relativa - Décimo terceiro capítulo. Maquinaria e grande indústria. Em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/capital/livro1/cap13/10.htm

[13] Uma das características mais gerais dos “pesadelos” é que são um tipo de sonho no qual nos frustramos a nós mesmos. Ver Fritz Perls, Sueños y existencia, Editorial Cuatro Vientos, 2002.

[14] O espaço social pode ser entendido como o resultado do conjunto de ações que rodeiam os objetos e as relações que os produzem. Segundo Lefebvre, “el espacio (social) no es una cosa entre las otras, un producto cualquiera entre los productos: más bien envuelve a las cosas producidas y comprende sus relaciones en su coexistencia y simultaneidad: en su orden y/o desorden (relativos) […] Efecto de acciones pasadas, el espacio social permite que tengan lugar determinadas acciones, sugiere unas y prohíbe otras. Entre esas acciones unas remiten al universo de la producción, otras al del consumo (es decir, al disfrute de los productos)”. La producción del espacio, Madrid: Capitán Swing, 2013, p. 129.

[15] Desde o chamado “experimento chileno neoliberal”, até seu particular código de aguas, passando por sua grande coleção de tratados internacionais, suas landlords canadenses, espanhóis, italianos e chineses, sua famosa indústria mineira, florestal e de salmão, suas “zonas de sacrifícios”, etc.

[16] Ver “Sobre la rebelión estudantil y la revolución social que se avecina” escrito em junho de 2019. Disponível aquí: https://comunidaddelucha.noblogs.org/post/2019/06/19/sobre-la-rebelion-estudiantil-y-la-revolucion-social-que-se-avecina/#more-842

[17] Ver “A insurreição de 1957 de Valparaíso, Santiago e Concepción: Lo que no cuenta la historiografia común.”

[18] Ver “Hacia la Comuna”, Raoul Vaneigem (2020). Disponível aqui: https://lapeste.org/wp-content/uploads/2020/03/Hacia-la-comuna_carta.pdf [19] Ver Herman Leighton, “El poderío del movimiento social detrás del Apruebo: el fenómeno político que lleva la ‘pole position’ para el plebiscito del 26 de abril”, 2020. Disponível aqui. [20] Segundo o International Displacement Monitoring Center, somente na primeira metade do ano de 2019 foram reportados 10.8 milhões de novos deslocamentos pelo mundo, nos quais 7 milhões foram ocasionados por desastres e 3.8 milhões por conflito e violência. [21] Ver: Raoul Vaneigem, “Unidad y diferencias en las insurrecciones de Francia y Chile”, 2020. Disponível aqui. [22] Erich Fromm, Budismo Zen e Psicoanálise.