A floresta sonha o fim do capital
- allan cob
- 7 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Por que os livros O sonho curto dos napëpë e a pandemia, de Rafael Afonso Silva, e Floresta é o nome do mundo, de Ursula K. Le Guin, merecem ser lidos em conjunto
por Allan de Campos Silva
Cinquenta anos separam a publicação de The Word for World Is Forest (1972) da grande mestra da ficção científica Ursula K. Le Guin – cuja primeira versão brasileira saiu como Floresta é o nome do mundo (Morro Branco, 2020) – e O sonho curto dos napëpë e a pandemia (Igrá Kniga, 2023 – disponível para download gratuito no site da editora: https://www.igrakniga.com/publicacoes), do sociólogo mineiro Rafael Afonso Silva.

As similaridades e cruzamentos entre estes dois espantosos livros, tão além do presente alcance, merecem uma resenha dupla. Silva escreve no sufoco de um traje de escafandrista, do fundo do oceano pandêmico, lutando por ar em meio ao genocídio da Covid-19 no Brasil, enquanto a norte-americana, entrincheirada nas matas do Planeta 41, relata na verdade a chuva de Napalm na guerra do Vietnã. É na sua relação para com “o sonho”, no entanto, que ambos se tocam – se confundem? As descrições da colônia intergalática de extração de madeira poderiam ter saído do livro do brasileiro, enquanto o pensar na encruzilhada do sonho Yanomami e das ciências, de Le Guin.

Até suas diferenças mais os aproximam do que os afastam: a escritora inventou uma raça de homenzinhos verdes incapazes de matar porque capazes de viver de outra forma entre o mundo-desperto e mundo-do-sonho, somente para descobrir de um colega antropólogo que o povo Senoi da Malásia havia sido descrito em posse do mesmo expediente. Já Silva toma a cosmologia Yanomami para analisar a pandemia em diálogo com a epidemiologia crítica, na pista de Rob Wallace (Grandes Fazendas Produzem Grande Gripes, IK, 2025), como alguém que pensa as ciências pelo sonho.
Em O sonho curto dos napëpë e a pandemia, os homens brancos dormem muito, sonham pouco e só consigo mesmos – um sonho terrível, diga-se de passagem – enquanto em Floresta é o nome do mundo “os homens só sonham quando dormem e distinguem o tempo-do-sonho e o tempo-do-mundo como um bebê”: uma vez que um Athsheano (Yanomami?) “tivesse aprendido a sonhar totalmente desperto, a equilibrar sua sanidade não no fio da navalha da razão, mas em um apoio duplo (o tênue equilíbrio entre razão e sonho), uma vez que tivesse aprendido isso, não poderia desaprender, assim como não se pode desaprender a pensar”.

A pandemia na publicação brasileira e o ecocídio na norte-americana figuram o mesmo pesadelo da razão obtusa do homem-branco-ocidental, em seus princípios cegos baseados na produtividade abstrata e suas tecnopolíticas antibióticas. Em busca de levar a cabo a máxima naturalista de controle da matéria viva como projeto civilizatório, ao fim e ao cabo, faz emergir o modo capitalista de produção de epidemias (Rob Wallace) no seio da eliminação da biodiversidade e do agronegócio industrializador da natureza.
Os Athsheanos de Le Guin são povos da megadiversidade, nos dizeres de Manuela Carneiro da Cunha – que nos lembra que “a consciência do risco criado pela perda da diversidade levou o próprio pai da Revolução Verde, Norman Borlaug, a propor a criação dos chamados bancos de germoplasma pelo mundo afora, para a conservação das variedades de plantas”. Tanto napëpë-homens brancos quanto os colonos-terranos querem domesticar a floresta sem deixar uma só árvore de pé, em estrito acordo com a recomendação científica, enquanto antecipam cinicamente que a eliminação de Athsheanos e/ou Yanomami vai acabar parecendo como simples produto de uma contaminação microbiológica em massa, à qual eles, de toda forma, mal poderiam reagir.
A intrusão do garimpo em terras Yanomami-Yek’wana foi liderada pelo Capitão Davidson? A milícia do capitão Bolsonaro financiou naves e campos de pouso extrativista em Nova Taiti? Seja qual for a pergunta, a resposta parece ser uma só: a catástrofe trazida pelos napëpë-terranos resulta da sua desmedida abstração civilizatória, como diz Krenak no prefácio do livro de Silva, devoração de terra-floresta e epidemia, esta, por sua vez, produto da aplicação contumaz da ciência-mercadoria pelo agro-extrativismo e seus capangas. Ou ainda, ressonando Kopenawa, o agro é sogro da gripe.

Floresta é o nome do mundo para os alienígenas quasi-humanos do Planeta 41. Floresta é o nome do mundo – não é essa a mensagem de A queda do céu de Kopenawa? Por isso, merecem não apenas serem lidos em conjunto, mas relidos para quem sabe possamos sonhar-acordad(a)os com o fim do sonambulismo capitalista. Afinal, como anotou Kafka, do fundo do pesadelo em vigília que foi a sua vida, o homem não despertou porque, como o cavalo, ainda dorme de pé.
Referências
SILVA, Rafael Afonso. O sonho curto dos napëpë e a pandemia. Igrá Kniga, São Paulo, 2023.
LE GUIN, Ursula K. Floresta é o nome do mundo. Morro Branco, São Paulo, 2020.
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