GRANDE PARA SEMPRE?

Maurilio Botelho

O colapso da Evergrande, uma das maiores incorporadoras imobiliárias da China e do mundo está sendo considerado com desespero pelos porta-vozes do mercado mundial como o novo “momento Lehman Brothers”, em referência à falência do banco de investimentos que serviu de gatilho para a crise financeira mundial de 2008. Será este o estopim para a implosão do sistema financeiro chinês? O Leviatã chinês conseguirá controlar as consequências do seu desenvolvimento capitalista baseado na ficcionalização da riqueza? | I.K


Diante da expectativa de falência da Evergrande, gigantesca empresa chinesa do setor imobiliário, os mercados do mundo estão com o “stress” amplificado há semanas, agravado nos últimos dias. Trata-se de uma corporação privada, a segunda maior incorporadora da China e que se tornou a empresa imobiliária mais valiosa do mundo em 2018, pois suas operações são diversificadas, atuando tanto na incorporação quanto na participação de projetos de terceiros, serviços imobiliários em geral, gerenciamento de propriedade etc. A empresa é parte de uma holding sediada nas Ilhas Cayman, mas tem origem e atuação principalmente na China, operando, além da incorporadora, empreendimentos econômicos como times de futebol, parques temáticos, serviços de saúde, produção de televisores e até mesmo de veículos elétricos (esse braço da corporação pretendia ser a maior empresa do mundo de carros elétricos, mas suas ações viraram pó nos últimos meses).


Hoje, a grandeza da Evergrande se vê também pela sua dívida, já que virou a imobiliária mais endividada do planeta, com 300 bilhões de dólares em passivos (uma parte considerável dela em processo de vencimento, o que já acionou o medo do mercado de default generalizado). Para se ter uma ideia da magnitude, Argentina apresentava, no ano passado, uma dívida de 324 bilhões de dólares, em processo de “reestruturação”, quase idêntica a da Evergrande e que corresponde a um terço de toda a dívida pública do Brasil. O volume é tão gigantesco que está sendo comparado ao “momento Lehman Brothers”, em referência ao colapso do banco de investimentos que serviu de estopim para a crise financeira de 2008. A preocupação é justificável, pois além dos credores da Evergrande, há milhares de projetos imobiliários tocados pela empresa que não serão entregues aos seus consumidores (muitos deles já estão com obras paradas espalhadas por cidades chinesas). Além disso, fornecedores de todos os tipos têm pagamentos a vencer ou já vencidos, como empresas de tintas, aço, cimento, material de acabamento e, claro, as próprias empreiteiras (nos próximos 12 meses, a Evergrande deveria pagar 37 bilhões de dólares às construtoras). Investidores já estão sendo afetados, pois títulos e ações da empresa estão depreciando rapidamente nos mercados asiáticos (em alguns caíram tanto que as negociações foram suspensas). O efeito dessa falência será catastrófico, já que a empresa afirma ter 200 mil funcionários e ser responsável pela criação de 3,8 milhões de empregos indiretos na China. Atualmente, desenvolve 1300 projetos imobiliários em 280 cidades chinesas e está envolvida em parcerias mais 2800 projetos em 310 cidades. O desempenho de cidades e províncias serão afetados diretamente pelo efeito dessa quebra.


A dúvida que paira é sobre a capacidade e interesse do governo chinês de realizar uma operação de “reestruturação” dessa corporação gigante. As indicações oficiais até o momento são apenas a de proteção aos compradores dos imóveis residenciais, mas há reclamações generalizadas para o que governo forneça também garantias aos demais setores prejudicados, o que não deixa de ser uma trágica ironia histórica que um regime auto-intitulado socialista seja pressionado a proteger a propriedade privada em todas as suas formas (desde a residencial, passando pelo crédito até chegando à propriedade no mercado de capitais). O caso da Evergrande demonstra a ilusão de que o sistema financeiro chinês é “planejado” e “regulado”, já que sua operação diversificada, sua alavancagem e os produtos derivados no mercado financeiro estão assustando toda a cadeia produtiva e comercial e os circuitos financeiros espalhados pelo mundo. O colapso da Evergrande pode ser o definitivo gatilho para a implosão do sistema financeiro paralelo [shadow bankings system] que o governo de Pequim tem buscado, de todos os modos, reduzir e controlar nos últimos anos.


No Ocidente, enquanto o mercado financeiro avalia as ações do Partido Comunista como “intervenção”, as nubladas formulações ideológicas da esquerda, que creem em modelos abstratos como “mercado planejado” e “socialismo com características chinesas”, avaliam as últimas operações do governo como “expropriação dos capitalistas”. Trata-se nada mais do que da repetição histórica, momentânea e cada vez mais espasmódica, das medidas estatistas de salvamento acionadas sempre nos momentos de dificuldade para equilibrar as tendências monetaristas radicalizadas em um capitalismo de crise. Essas medidas de “regulação” têm sido praticadas sistematicamente pelo governo chinês nos últimos anos, já que o endividamento explosivo, o acúmulo de produção excedente, a milionária oferta de imóveis sem compradores e a ociosidade crescente dos recursos têm produzido contradições insustentáveis mesmo para o país dos “dois sistemas”. Dado o excesso gigantesco de imóveis e infraestrutura subutilizada, por exemplo, o governo tem controlado a produção de aço, cimento etc... o que frustrou recentemente as expectativas de uma novo superciclo de commodities com a “retomada” da economia pós-covid (empresas exportadoras de insumos para a construção em todo o mundo têm declinado nas últimas semanas devido às restrições na China).


Essas medidas têm “dirigido” a desvalorização e depreciação inevitável em uma economia que só cresceu graças ao influxo de capital fictício do Ocidente e que só existe como força produtiva integrada imediatamente ao mercado mundial, portanto, desde o princípio marcada pela ficcionalização da riqueza, dependência da exportação e superacumulação de capital monetário (circuito deficitário do Pacífico). A imagem da China como uma “economia nacional em crescimento”, explorada ao extremo nos últimos anos no Brasil por uma esquerda viúva de modelos econômicos fracassados, é pura ilusão, pois não há nada de “nacional” nessa integração à economia global e o papel do seu mercado interno é reduzido. O que resta agora é avaliar a capacidade do governo chinês de contornar esse processo inevitável de crise, o que já faz, há anos, trocando dívidas locais por dívida nacional, maquiando contabilidade oficial, ampliando sua dívida, sustentando empresas zumbis e agora também promovendo expansão monetária. A desaceleração brutal da economia chinesa já é visível e seus efeitos sociais colocarão por terra a última esperança dos “progressistas” nas ilusões do desenvolvimento capitalista.