O PLANETA ENFERMO (Guy Debord)

Guy Debord

"Revolução ou morte": esse slogan já não é a expressão lírica da consciência revoltada, mas a última palavra do pensamento científico de nosso século. E isso vale tanto para os perigos que corre a espécie como para a impossibilidade de adesão para os indivíduos. [...] A produção industrial alienada faz a chuva. A revolução faz o bom tempo.

[La planète malade, 1971. Traduzido por Daniel Cunha e publicado na revista Sinal de Menos nº2, 2009]




O planeta enfermo


A "poluição" está na moda hoje em dia, exatamente da mesma maneira que a revolução: se apodera de toda a vida da sociedade, e é ilusoriamente representada no espetáculo. Ela é a verborragia tediosa que preenche uma pletora de escritos e discursos falsos e misfiticadores, mas agarra todos pelo pescoço através dos fatos. Se expõe em todos os lados como ideologia e ganha terreno como processo real. Esses dois movimentos antagônicos, o estágio supremo da produção mercantil e o projeto de sua negação total, igualmente ricos em contradições em si mesmos, crescem juntos. São os dois lados pelos quais se manifesta um mesmo momento histórico longamente esperado e freqüentemente previsto sob formas parciais e inadequadas: a impossibilidade de que o capitalismo continue funcionando.


A época que possui todos os meios técnicos para alterar totalmente as condições de vida sobre a terra é também a época que, em virtude deste mesmo desenvolvimento técnico e científico separado, dispõe de todos os meios de controle e previsão matematicamente indubitável para medir por antecipação aonde leva - e até que data - o crescimento automático das forças produtivas alienadas da sociedade de classes: ou seja, para medir a rápida deterioração das próprias condições de sobrevivência, no sentido mais geral e mais trivial da palavra.


Enquanto os imbecis passadistas seguem dissertando ainda sobre (e contra) uma crítica estética de tudo isso, julgando-se lúcidos e modernos porque aparentam esposar-se com seu século, declarando que Sarcelles ou as autopistas possuem uma beleza peculiar, preferível à incomodidade dos "pitorescos" bairros antigos, ou observando seriamente que o conjunto da população se alimenta melhor do que antes, a despeito dos nostálgicos da boa cozinha, o problema da deterioração da totalidade do meio natural e humano deixou já completamente de apresentar-se no plano da suposta qualidade antiga, estética ou não, para converter-se radicalmente no problema mesmo da possibilidade material da existência do mundo que segue tal movimento. A impossibilidade já foi de fato perfeitamente demonstrada por todo o conhecimento científico separado, que já discute apenas a data de vencimento e os paliativos que, se aplicados com firmeza, poderiam adiá-la um pouco. Uma ciência semelhante não pode senão acompanhar em seu caminho para a destruição o mundo que a produziu e que a mantém; mas ela se vê obrigada a percorrer esse caminho com os olhos abertos: com o que mostra em grau caricaturesco a inutilidade do conhecimento sem emprego.


Se está medindo e extrapolando com excelente precisão o rápido aumento da poluição química da atmosfera respirável, da água dos rios, dos lagos e dos oceanos; o aumento irreversível da radiatividade acumulada pelo desenvolvimento pacífico da energia nuclear; dos efeitos do ruído; da invasão do espaço por produtos de materiais plásticos que demandam uma eternidade de aterro sanitário; da natalidade demente; da falsificação insensata dos alimentos; da lepra urbanística que vem ocupando cada vez mais o lugar do que foram a cidade e o campo, assim como das enfermidades mentais - incluídos os temores neuróticos e as alucinações, que não tardarão a multiplicar-se a propósito da própria poluição, cuja imagem alarmante se exibe em todas as partes - e do suicídio, cujas taxas de expansão coincidem já exatamente com a da edificação de semelhante ambiente (para não falar dos efeitos da guerra nuclear ou biológica, para a qual já estão aí os meios, como espada de Dâmocles, ainda que siga sendo evidentemente evitável).


Em suma, se o alcance e ainda a realidade dos "terrores do ano mil" são ainda matéria de controvérsia entre os historiadores, o terror do ano dois mil é tão patente como bem fundado; a partir de agora, é uma certeza científica. E, contudo, o que está passando não é no fundo nada novo: é somente o fim forçado do processo antigo. Uma sociedade cada vez mais enferma, mas cada vez mais poderosa, recriou em todas as partes o mundo concretamente como entorno e decoração de sua enfermidade, como planeta enfermo. Uma sociedade que ainda não tornou-se homogênea e que não se determina a si mesma, mas que está determinada cada vez mais por uma parte de si mesma que se situa acima e à margem dela, desenvolveu um movimento de dominação da natureza que não dominou a si mesmo. O capitalismo trouxe, finalmente, por seu próprio movimento, a prova de que já não é capaz de seguir desenvolvendo as forças produtivas, e não em um sentido quantitativo, como muitos acreditavam entender, mas qualitativo.


E, contudo, para o pensamento burguês, metodologicamente, só o quantitativo é o sério, o mensurável, o efetivo; o qualitativo não é mais do que a incerta decoração subjetiva ou artística do verdadeiramente real estimado em seu verdadeiro peso. Para o pensamento dialético, pelo contrário, e, portanto, para a história e para o proletariado, o qualitativo é a dimensão mais decisiva do desenvolvimento real. Eis o que o capitalismo e nós acabamos por demonstrar.


Os senhores da sociedade se vêem agora obrigados a falar da poluição, tanto para combatê-la (pois eles vivem, no fim das contas, no mesmo planeta que nós: eis aqui o único sentido em que se pode admitir que o desenvolvimento do capitalismo tenha realizado efetivamente uma certa fusão das classes) como para dissimulá-la: pois a simples verdade das "nocividades" e dos riscos atuais é suficiente para constituir um imenso fator de revolta, uma exigência materialista dos explorados, tão vital quanto foi no século XIX a luta dos proletários pela possibilidade de comer. Após o fracasso fundamental de todos os reformismos do passado - todos os quais aspiravam a solução definitiva do problema das classes -, um novo reformismo se desenha, que obedece às mesmas necessidades que os precedentes: engraxar a maquinaria e abrir novas possibilidades de lucro para as empresas de ponta. O setor mais moderno da indústria se lança sobre os diversos paliativos da poluição como sobre um novo mercado, tanto mais rentável pelo fato de que poderá usar e manejar grande parte do capital monopolizado pelo Estado. Mas se esse novo reformismo tem de antemão a garantia de seu fracasso, exatamente pelas mesmas razões que os reformismos do passado, ele guarda em relação àqueles esta diferença radical de que este já não tem tempo diante de si.


O desenvolvimento da produção se verificou inteiramente até aqui como realização da economia política: desenvolvimento da miséria, que invadiu e arruinou o próprio meio da vida. A sociedade na qual os produtores se matam trabalhando e só podem contemplar o resultado, lhes oferece francamente para ver, e respirar, o resultado geral do trabalho alienado como resultado de morte. Na sociedade da economia superdesenvolvida, tudo possou a fazer parte dos bens econômicos, mesmo a água das fontes e o ar das cidades; o que equivale a dizer que tudo se converteu no mal econômico, a "negação total do homem" que chega agora à sua perfeita conclusão material. O conflito entre as forças produtivas modernas e as relações de produção, burguesas ou burocráticas, da sociedade capitalista, entrou em sua última fase. A produção da não-vida seguiu com cada vez maior rapidez seu processo linear e cumulativo; ao ultrapassar o último umbral de seu progresso, ela produz agora diretamente a morte.


A função última, confessada e essencial da economia desenvolvida de hoje, em todo o mundo em que impera o trabalho-mercadoria que assegura todo o poder a seus patrões, é a produção de empregos. Bem longe estamos, pois, das idéias "progressistas" do século passado sobre a possível redução do trabalho humano graças à multiplicação científica e técnica da produtividade, que se supunha asseguraria com cada vez maior facilidade a satisfação das necessidades anteriormente reconhecidas por todos como reais, e sem alteração fundamental da qualidade dos bens que se encontrariam disponíveis. Agora é para criar empregos, até no campo esvaziado de camponeses, quer dizer, para utilizar o trabalho humano enquanto trabalho alienado, enquanto salariato, que se faz todo o resto; e portanto ameaçamos estupidamente as bases da vida da espécie, atualmente ainda mais frágeis do que o pensamento de um Kennedy ou de um Brejnev.


O velho oceano é em si mesmo indiferente à poluição; mas a história não o é. Ela só pode ser salva através da abolição do trabalho-mercadoria. E nunca antes a consciência histórica havia tido tanta necessidade de dominar com toda a urgência o seu mundo, porque o inimigo que está à sua porta já não é a ilusão, mas sua morte.


Quando o pobres senhores da sociedade cujo penoso resultado estamos presenciando - resultado muito pior do que qualquer condenação que antes pudessem fulminar os mais radicais utopistas - se vêem agora forçados a admitir que nosso entorno se fez social e que a gestão de tudo se converteu em assunto diretamente político, até a erva dos campos e a possibilidade de beber, de dormir sem demasiados soníferos ou de lavar-se sem sofrer de múltiplas alergias, em um momento como este se está vendo às claras que também a velha política tem de confessar que está completamente acabada.


Está acabada na forma suprema de seu voluntarismo, o poder burocrático totalitário dos regimes ditos socialistas, porque os burocratas no poder não se mostraram capazes nem sequer de gerir o estágio anterior da economia capitalista. Se poluem muito menos (os Estados Unidos produzem sozinhos 50% da poluição mundial) é porque são muito mais pobres. Não podem senão reservar, como na China, por exemplo, uma parte desproporcionada de seus míseros orçamentos para pagar-se com a parte de poluição de prestígio das potências pobres: alguns aperfeiçoamentos ou redescobertas no terreno das técnicas de guerra termonuclear, ou mais exatamente de seu espetáculo ameaçador. Tanta pobreza, material e mental, sustentada por tanto terrorismo, condena as burocracias no poder. E o que condena o poder burguês mais modernizado é o resultado insuportável de tanta riqueza efetivamente envenenada. A gestão dita democrática do capitalismo, seja no país que for, não oferece mais do que suas eleições-renúncias, que, como se viu sempre, nunca modificaram nada no conjunto - e muito pouca coisa nos detalhes - de uma sociedade de classes que se imaginava que iria durar indefinidamente. Elas não a modificam nem um pouco mais no momento em que a própria gestão entra em pânico e finge querer, para enfrentar certos problemas secundários mas urgentes, quaisquer vagas diretrizes do eleitorado alienado e cretinizado (como ocorre nos Estados Unidos, na Inglaterra ou na França). Todos os observadores especializados destacaram sempre - ainda que sem se preocupar em explicá-lo - o fato de que o eleitor não muda quase nunca de "opinião": e isto ocorre justamente porque ele é eleitor, isto é, aquele que assume, por um breve instante, o papel abstrato que está destinado precisamente a impedi-lo de que seja por si mesmo e que mude (o mecanismo foi desmontado mil vezes, tanto pela análise política desmistificada como pelas explicações da psicanálise revolucionária). O eleitor tampouco muda quando o mundo muda cada vez mais precipitadamente ao seu redor; e, enquanto eleitor, não mudará nem às vésperas do fim do mundo. Todo sistema representativo é essencialmente conservador, ainda que as condições de existência da sociedade capitalista não tenham podido conservar-se jamais: elas se modificam sem interrupção e cada vez mais depressa, ainda que a decisão - que vem a ser sempre, no fim das contas, a decisão de permitir o processo mesmo da produção mercantil - seja deixada inteiramente em mãos de especialistas publicitários, quer se apresentem à corrida sozinhos ou em competição com aqueles que querem fazer o mesmo e declaram o seu propósito abertamente. Ainda assim, o homem que acaba de votar "livremente" nos gaullistas ou no PCF, assim como o que acaba de votar, à força e obrigado, em Gomulka, é capaz de dar mostra do que verdadeiramente é participando, na semana seguinte, de uma greve selvagem ou de uma insurreição.


A assim chamada "luta contra a poluição", em sua vertente estatal e regulamentadora, vai criar antes de tudo novas especializações, serviços ministeriais, postos de trabalho e ascensões burocráticas. Sua eficácia será exatamente aquela que a tais meios corresponde. Ela não pode converter-se em vontade real a não ser transformando o sistema produtivo atual em suas próprias raízes. Ela não pode levar-se a cabo com firmeza a não ser no instante em que todas as suas decisões, tomadas democraticamente e com pleno conhecimento de causa, pelos produtores, sejam em todos os momentos controladas e executadas pelos próprios produtores (os navios petroleiros, por exemplo, seguirão infalivelmente vertendo petróleo nos mares enquanto não forem comandados por verdadeiros sovietes de marinheiros). Para decidir e executar tudo isso, é necessário que os produtores se tornem adultos: é necessário que todos tomem o poder.


O otimismo científico do século XIX desmoronou em três pontos essenciais. Em primeiro lugar, a pretensão de garantir a revolução como resolução feliz dos conflitos existentes (a ilusão hegeliano-esquerdista e marxista; a menos refletida pela intelectualidade burguesa, mas a mais rica e, depois de tudo, a menos ilusória); segundo, a visão coerente do universo, e mesmo da matéria, simplesmente; e terceiro, o sentimento eufórico e linear do desenvolvimento das forças produtivas. Se dominarmos o primeiro ponto, teremos resolvido o terceiro; mais adiante, saberemos fazer do segundo nosso assunto e nosso jogo. Não se deve curar os sintomas, mas a própria enfermidade. Hoje em dia o medo está em todos os lados, e não vamos sair dele senão confiando em nossas próprias forças, em nossa capacidade de destruir toda alienação existente e toda imagem do poder que nos tenha escapado, submetendo tudo, exceto nós mesmos, ao único poder dos conselhos de trabalhadores, que possuam e reconstruam a cada instante a totalidade do mundo; quer dizer, na racionalidade verdadeira, numa nova legitimidade.


Em matéria de meio ambiente "natural" e construído, de natalidade, de biologia, de produção, de "loucura", etc., não será necessário eleger entre a festa e a desgraça, mas, conscientemente e a cada passo, entre mil possibilidades felizes ou desastrosas, relativamente corrigíveis, e, por outro lado, o nada. As escolhas terríveis do futuro próximo só deixam esta alternativa: democracia total ou burocracia total. Aqueles que duvidam da democracia total devem fazer o esforço de prová-la por si mesmos, dando-lhe a ocasião de provar-se em processo; do contrário, só lhes resta comprar a tumba a prestações, pois "o que é a autoridade, a vimos em ação [à l’oeuvre], e suas obras [oeuvres] a condenam" (Joseph Déjacque).


"Revolução ou morte": esse slogan já não é a expressão lírica da consciência revoltada, mas a última palavra do pensamento científico de nosso século. E isso vale tanto para os perigos que corre a espécie como para a impossibilidade de adesão para os indivíduos. Nesta sociedade, na qual o suicídio progride como é sabido, os especialistas tiveram de reconhecer, com certo pesar, que ele havia descendido a quase nada em maio de 1968. Aquela primavera conseguiu também, sem precisamente a ele ascender em assalto, um céu limpo, porque alguns automóveis foram queimados e a todos os outros faltava combustível para poluir. Quando chove, quando há falsas nuvens sobre Paris, não esqueçam jamais que a culpa é do governo. A produção industrial alienada faz a chuva. A revolução faz o bom tempo.