"REVOLTA, NÃO TRABALHO!" escritos sobre os levantes de Brixton, 1981



We want to riot not to work! : the 1981 Brixton Uprisings

Queremos revolta não trabalho! : os levantes de 1981 em Brixton

Panfleto do coletivo Riot Not Work publicado em abril de 1982


Breve contexto:

"Nos primeiros acenos dos anos 1980, os ânimos estavam desgastados. Os graves do baixo soavam como trovões subterrâneos, reverberando um descontentamento que fervilhava na comunidade negra por anos. O desemprego era alto e a Frente Nacional predominava. As leis recém-criadas deram à polícia a autoridade de deter, revistar e geralmente brutalizar jovens negros sem motivo aparente. O festival Rock Against Racism fez o possível para unir culturas negras e brancas silenciando o estridente da extrema-direita. Músicos de todos os gêneros se uniram num coletivo, organizando shows na esperança de que a música neutralizasse a doutrinação tóxica que a Liga Nazista oferecia. O mundo do Reggae e do Punk encontrou um amparo inesperado e criaram vínculos um no outro... as ruas estavam prestes a entrar em erupção. O ponto de inflexão ocorreu quando 13 jovens morreram num incêndio em 18 de janeiro de 1981. Eles tinham entre 14 e 22 anos. Inicialmente suspeitos de serem alvo de um ataque racial, a mídia/polícia/governo silenciou, pois naquela época as vidas negras pareciam "não importar" mesmo. Apelidado de New Cross Fire, o massacre levou 20.000 pessoas às ruas no 'Dia de Ação dos Povos Negros'. O silêncio institucionalizado que se seguiu provocou indignação e, na sequencia, revoltas eclodiram no centro da Inglaterra." (Reggae Mixtape - 1981 Riots & Bloodshed [Part I])
"Antes de 1981, os levantes em massa contra a polícia geralmente vinha de mobilizações por reivindicações específicas, geralmente negociadas por organizações políticas; as armas até então eram bastante limitadas para aqueles dispostos à tomá-las (tijolos, garrafas, paus, pedras). Em 1977, por exemplo, quando a polícia tentou proteger a marcha do Fronte Nacional em Lewishan, no sudeste de Londres, ela atacou os antifascistas, provocando uma revolta que levou a polícia a usar pela primeira vez na Inglaterra um escudo anti-revolta. Em abril de 1981, no entanto, esses escudos foram incendiados quando os rebeldes de Brixton usaram pela primeira vez o Molotov como arma de rua. Esta revolta, e a onda que se estendeu pelo país ao longo dos 3 meses que se seguiram, vêm de um longo conflito com a própria presença da polícia, e não de uma negociação para uma solução "política" (We want to riot not to work)

Sumário:

1. "Era isso que precisava ser feito!"

2. A classe impossível

3. Do ataque à defesa de...?


Panfleto disponível em PDF para baixar em:

libcom original em inglês

infokiosques versão em francês

Em breve por aqui na IK sai a versão em português !

INTRODUÇÃO: BEM VINDOS À BRIXTON E A SEU FAMOSO MERCADO!



No momento em que este panfleto está sendo impresso, um ano se passou desde o levante de abril em Brixton, seguido por outras revoltas na Inglaterra até julho. Desde então, a superfície aparente aqui em Brixton mudou bastante. Na High Street, os gentrificadores andam bastante ocupados no trabalho, recebendo turistas em "Brixton e seu famoso mercado!", na tentativa de ganhar alguns trocados. Ao longo da Linha de frente [Frontline 1], nas portas de ferro ondulado das lojas, agora está cheio de pixações... sobre a Polônia! Parece que a política assumida pelo Lambeth Council (conselho municipal local controlado pelo Partido Trabalhista) tem sido apagar imediatamente qualquer slogan que se refira à luta de classes local, mas não os que tratam das lutas em outros lugares.


O que é que mudou desde os levantes do ano passado? Pelo menos desde fevereiro, um helicóptero da polícia tem sido visto sobrevoando Brixton. Ele tem dado instruções às viaturas que patrulham a região, onde as operações de busca-e-apreensão continuam frequentes. Também tem sido realizadas operações noturnas, com o helicóptero lançando sua luz de busca por toda área - cena que até então era familiar apenas para as áreas nacionalistas da Irlanda do Norte.


Agora eles acabam de divulgar as estatísticas de "assalto" com base em origem étnica. Nesse momento de aumento dos ataques aos negros por parte tanto da polícia quanto de grupos racistas, essa tática policial só pode ser entendida como uma provocação. Também já é de conhecimento de todos que a polícia passou instruções secretas aos oficiais do Lambeth Council para o próximo fim de semana, que marcará o aniversário de um ano dos levantes de abril. Além disso, o Conselho acaba de concretar canteiros de flores em todos os espaços abertos dos shoppings de Brixton Road. Pode até ser que essas caixas sejam apenas para decorar o lugar, só que elas muito oportunamente impedem às multidões de se reunir nesses espaços estratégicos.


Enquanto isso, os aspectos mais importantes da vida cotidiana pouco mudaram. A polícia retoma gradualmente os enquadros aos jovens da classe trabalhadora nas ruas (especialmente os negros). As ocupações mais antigas, situadas na Linha de frente, tem recebido avisos de reintegração de posse. Seguimos "levantando" todos dias, "marchando" em direção aos nossos trabalhos entendiantes e inúteis, ou indo ao escritório do Departamento de Saúde e Serviço Social (DHSS) buscar nossos cheques quinzenais do seguro desemprego. Ainda que os levantes não tenham mudado as condições fundamentais de trabalho, salário e repressão policial, para a gente ao menos eles marcaram uma mudança temporária nas relações sociais. Nós tiramos proveito da ruptura com a autoridade que a economia de mercado exerce sobre as nossas vidas: através da experiência, por exemplo, de "ir às compras sem dinheiro", o que deu ao famoso "mercado de Brixton" um novo e inesperado significado e nos libertou da mediação do dinheiro para comprar e vender as coisas.


Estamos retomando aqui os levantes do ano passado, mas não para evocar uma memória romântica ou fazer "análises" descoladas da realidade. Na verdade, apresentamos este panfleto com a sensação de que estamos saindo do "inverno mais gelado dos últimos 30 anos" para entrar naquilo que poderá vir a ser "o verão mais quente de todos". Esperamos que este material traga algumas reflexões úteis para as lutas do futuro - tomem elas a forma da luta do ano passado ou não.


É importante dizer que todos os autores aqui são brancos. Reconhecendo a resistência dos negros contra o racismo durante os levantes, queremos chamar atenção para como essa resistência se tornou uma ampla abertura para a nossa recusa em seguir meramente "sobrevivendo", enquanto trabalhadores assalariados ou sem trabalho, enquanto mulheres, etc. Ainda que as nossas experiências de exploração, de assédio e de coerção sejam diferentes daquelas vividas pelos negros e asiáticos, nós viemos lutar os mesmos combates nas ruas, contra o mesmo inimigo: a polícia. Ao mesmo tempo, estamos conscientes que as tensões entre negros e brancos, homens e mulheres, continuam após os levantes.


Este panfleto contém 3 partes principais, cada uma tratando dos acontecimentos em nível diferente, escritas por diferentes colaboradores.


I) ERA ISSO QUE TINHA QUE SER FEITO!


Generalizações sobre os eventos dificilmente são úteis, a não ser que reflitam a experiência daqueles que estiveram de fato envolvidos. Os autores que contribuíram nessa primeira parte expressam seus pensamentos, sensações e aspirações ao longo dos levantes de abril. O primeiro relato também traz algumas informações de fundo sobre Brixton e os acontecimentos que levaram aos levantes. Todos estes relatos foram originalmente escritos logo na sequência dos eventos, mas não tinham sido publicados até aqui (exceto o primeiro, que a gente tirou da publicação Freedom).


Demos o título a essa primeira parte a partir de uma citação que aparece no Scarman Report, da juventude negra dizendo porque é que participaram dos protestos: "Era isso que precisava ser feito". Nossos relatos ajudam a explicar como o incidente inicial despertou um levante que atraiu uma participação muito mais ampla do que a de apenas homens jovens e negros; ao mesmo tempo, questiona porque é que este levante não se estendeu ainda mais em duração e território.


II) A CLASSE IMPOSSÍVEL


O debate entre a esquerda e a direita a respeito dos levantes permaneceu centrado na questão se teria sido o fator desemprego o responsável por despertar os atos ou não, e se sim como. Mas a segunda parte deste panfleto vai além dessa sociologia estéril. Ao invés de querer examinar estatísticas de desemprego relativo, estamos olhando para uma nova composição de classe que vem emergindo, desafiando tanto as análises de classe ortodoxas quanto as estratégias de controle do Estado. Os confrontos de rua podem ser compreendidos como um fracasso do sistema em policiar o mercado de trabalho capitalista, mas por meios de análise mais finos, se considerarmos a recente transformação na própria natureza do emprego e do desemprego, muito por conta da restruturação econômica demandar hoje uma força de trabalho bem menos especializada e bem menos permanente. O desemprego só pode ser apontado como "causa" dos levantes no sentido em que serviu de impulso para trazer os confrontos dos locais de trabalho para as ruas, mas ele certamente não despertou uma demanda de massa por ainda mais trabalho assalariado.


O artigo ainda olha criticamente para o antigo cliché de "comunidade". Esse termo normalmente evoca a propriedade "comunitária" tradicional, que envolve a autoridade dos professores, dos guardas das lojas, da estrutura familiar, etc. O levante por sua vez marcou uma ruptura com essa comunidade respeitável, ao mesmo tempo que abriu o horizonte para uma outra comunidade em oposição a esta, que o Estado tem que desorganizar. "A classe impossível" termina assim colocando a questão sobre como "construir uma comunidade oposta de atividades criativas", que fosse "capaz de se defender ela própria do Estado e dos partidos políticos", (...) "sendo efetivamente construída a partir dos momentos mais criativos das recentes revoltas".


(Este artigo é inteiramente baseado num texto muito mais longo, escrito originalmente logo após os levantes de Julho. A versão completa aparece no nº 33 do jornal Anarchy, mas sem a introdução que foi especialmente escrita pra esse panfleto).

III) DO ATAQUE À DEFESA DE...?


Esta terceira parte apresenta o problema do que se deu após os levantes. Ainda que uma revolta não possa continuar indefinidamente sem que haja um levante revolucionário generalizado, ela ao menos pode contribuir para provocá-lo. No entanto, até aqui temos visto nossos levantes quase sempre serem seguidos de repressão, isolamento e divisão entre aqueles que, por um momento, haviam se juntado numa comunidade insurgente. Como é que a gente pode ir além dessa repetição sem fim?


Logo após os levantes de julho, por exemplo, uma multidão presente num tribunal em Wolverhampton quase conseguiu libertar seus camaradas da cadeia. Já no inverno, centenas de pessoas tiveram que encarar sentenças de prisão, sob as mesmas condições de isolamento social que prevaleciam antes de tudo. O capitalismo vai continuar derrotando a gente enquanto as rebeliões continuarem restritas aos meses mais quentes do ano, ou às ocasiões especiais de comemoração de aniversário de algum acontecimento, ou aos contra-ataques apenas às mais flagrantes provocações da polícia -- o que ultimamente tem deixado a iniciativa dos atos, portanto, ao Estado.


Com esses problemas em mente, o artigo olha especialmente para a inabilidade dos grupos de defesa de Brixton em manter os "momentos criativos" das revoltas, expressando, ao invés disso, uma enorme desorganização e falta de força que foram tão limitantes aos levantes de julho como foram os próprios avanços das táticas policiais. Este artigo tenta dar sugestões para outras formas organizacionais possíveis, para a defesa dos alvos de repressão policial e generalização da rebelião da comunidade oponente. Assim, no momento em que atingirmos a um ponto de tensão que possa nos levar a um novo levante, o trabalho de base já poderia estar preparado, de modo a nos levar além da defesa do território do bairro, em direção a uma transformação total da vida cotidiana, destruindo as regras do capital e do estado.


Para concluir essa Introdução, queremos lembrar aos leitores que os autores que contribuíram aqui são quase todos moradores de Brixton, seus escritos então naturalmente enfatizam a situação aqui. Embora a gente tenha feito algumas referências a eventos de outras cidades, temos algumas limitações para incorporá-los completamente em nossas análises. Esperamos que este panfleto possa inspirar pessoas de outros lugares - de Toxteth, St-Paul, Handsworth, Moss Side, etc... - a publicarem suas experiências também.


Coletivo REVOLTA, NÃO TRABALHO

Março 1982

1 Frontline, ou Linha de frente, é como passou a ser popularmente chamada a Railton Road, rua de Brixton onde efetivamente se deu a linha de frente das batalhas contra a polícia em 1981. A área, que na época era considerada perigosa pela elite e classe média londrina ("a no-go area") era na verdade um importante território da cultura afro-caribenha, de atividades políticas ditas radicais, da cena punk londrina, de conjuntos habitacionais e comerciais para a classe trabalhadora. Aparentemente esse passado tem sido apagado por uma assim chamada gentrificação da área.