Quebrando o gelo: a luta contra o fascismo em um império em declínio
- 14 de jan.
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Atualizado: 14 de jan.
Ou como as pessoas estão se organizando para enfrentar o colapso do capitalismo
Por Allan de Campos

No dia 7 de janeiro, um agente do ICE – o serviço de imigração dos EUA – matou a tiros Renee Nicole Good, mãe e poetisa, em meio à operação Metro Surge. Movida pelo governo Trump e classificada pelo procurador-geral de Minnesota como uma "invasão federal", a ação já levou à prisão mais de 1.500 pessoas nas cidades gêmeas de Minneapolis e St. Paul, conhecidas como cidades-santuário para imigrantes. A poucas quadras dali, na zona sul de Minneapolis, George Floyd fora morto por um policial logo no início da pandemia, em 2020, reavivando os protestos antirracistas a partir do lema "Vidas Negras Importam", que culminaram no incêndio de uma delegacia da cidade. "Welcome to Somali, bitch!" – disse agora um homem somali a um agente do ICE que o abordava, evocando a frase do outro agente que disparou contra Renee Good.
A forte reação da população aos assassinatos cometidos por agentes do Estado traz à tona alguns sintomas do declínio do império estadunidense no âmbito do desmonte da economia capitalista global: fronteiras, imigração, desemprego e ressentimento de classe, xenofobia, políticas racializadas de morte e, cada vez mais, a guerra civil tornam-se tópicos pelos quais se mede a temperatura do conflito. Deixo aqui algumas impressões sobre a natureza desse conflito – e algumas notas sobre como as pessoas estão se organizando para enfrentar o colapso do capitalismo.

Viajei para as cidades gêmeas em 2022 para pesquisar os impactos da COVID-19 nos EUA a partir das infraestruturas do agronegócio. Em poucas palavras, minha pesquisa demonstra como as corporações do agronegócio produzem espaços de contágio, tanto no Brasil quanto nos EUA. Por exemplo, os frigoríficos da corporação brasileira JBS em Minnesota haviam se tornado centros de supercontágio entre trabalhadores entre 2020 e 2021, o que afetou bastante as comunidades latinas e somalis. Foi nessa ocasião que pude visitar o Centro de Trabalhadores da Grande Minnesota, na pequena cidade de St. Cloud, uma organização social de base da comunidade somali, no estado que abriga a maior população somali fora da Somália. O censo de 2020 aponta para uma população de 100.000 somalis no estado, a grande maioria composta por cidadãos estadunidenses.

Em uma conversa iluminadora, o ativista M. Goni relatou-me as agruras que os somalis passam nas garras do agronegócio, as violações sanitárias e socioeconômicas e as humilhações racistas e religiosas a que são submetidos enquanto trabalham nos frigoríficos da JBS. Goni havia se tornado uma figura proeminente na luta dos somali-americanos contra tais expedientes quando passou a organizar protestos nessas fábricas de carne: noventa por cento dos trabalhadores da fábrica da JBS em St. Cloud são de origem somali. Goni diz que sua principal tarefa ali é encontrar trabalhos para a comunidade somali fora do agronegócio. Dirigir um caminhão da Amazon por 12 horas, urinando em garrafas PET, pode até parecer uma saída, perto dos níveis de adoecimento e violação trabalhista típicos desses frigoríficos.
Minneapolis e St. Paul, as cidades-santuário, são chamadas assim após décadas de lutas de diversos grupos por legislações protetivas para imigrantes que, via de regra, compõem a força de trabalho mobilizada desde o Sul Global para trabalhar nas fazendas do interior de Minnesota ou nos serviços e comércio nas cidades. Os imigrantes escancaram a dependência do estado em relação à sua força de trabalho organizando protestos batizados como "Dia sem Imigrantes", quando boicotam serviços e comércios, gerando o fechamento temporário de empresas, absenteísmo escolar e interrupções econômicas. Entre as legislações locais conquistadas nas cidades gêmeas estão a provisão de documentação, carteiras de motorista e a recusa de alguns órgãos locais, inclusive a polícia, em fornecer informações sobre pessoas não documentadas às autoridades imigratórias federais.
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MAS Minnesota é também um lugar atravessado por contradições: um estado liberal-democrata, fortemente comandado pelo agronegócio – Minneapolis abriga o quartel-general da corporação Cargill, associada a diversas violações socioambientais no Brasil (desmatamento ilegal, invasão de terras indígenas e contaminação por agrotóxicos, para dizer o mínimo). Desde os anos 1930, ali vota-se nos democratas nas eleições presidenciais, e o atual governador Tim Waltz foi vice na chapa de Kamala Harris em 2024.
Diversos movimentos sociais compõem a paisagem política das cidades gêmeas, disputando avanços para a proteção de comunidades imigrantes e lutando contra a violência policial e o racismo. O bairro de Cedar-Riverside, na margem oeste do rio Mississippi, com grande população afro-americana, é pontuado aqui e ali por centros de bem-estar somali e até por um restaurante indígena Sioux, que só serve alimentos indígenas em uma área de retomada na beira do rio. A comunidade somali em Minnesota é vibrante, composta por pessoas de diferentes classes sociais. A atual configuração da presença somali nos EUA tem início com a guerra civil na Somália, da qual um extenso grupo de pessoas fugiu. Hoje, jovens, especialmente mulheres, frequentam as diversas universidades públicas e privadas nas cidades gêmeas – vi isso em uma cerimônia de formatura universitária enquanto caminhava por uma universidade em St. Paul.
De acordo com o Center for Immigration Studies, existem hoje ao menos 200 cidades-santuário nos EUA. Em seu segundo mandato, Trump já ordenou operações do ICE em ao menos outras duas cidades-santuário – e foi expulso de Los Angeles e de Chicago em 2025. Agora, com a população nas ruas e autoridades estaduais e municipais se unindo para fazer frente à operação do ICE em Minnesota, Trump dobra a aposta e promete enviar mais agentes ao estado e até cortar as verbas federais das cidades-santuário em todo o país.
Contudo, ao final das contas, o que se percebe é que, para além das políticas santuário, que são fundamentais para garantir a existência das comunidades nas cidades, a presença de organizações imigrantes e antirracistas é fundamental para dar corpo à resistência ao fascismo e lutar pela dignidade coletiva. Tive o prazer de participar de uma reunião do Comitê de Ação pelos Direitos dos Imigrantes de Minnesota (MIRAC), uma organização de base movida principalmente pela comunidade latina de Minneapolis. O MIRAC lutou pela implementação de "Carteiras de Habilitação para Todos" em Minnesota, permitindo que imigrantes indocumentados obtenham carteiras de habilitação, agora em vigor em Minneapolis e St. Paul. Afinal, abordagem de policiais no trânsito são uma porta de entrada para a repressão sobre a comunidade imigrante indocumentada. Outra frente do grupo é a pressão sobre condados vizinhos para que os departamentos de polícia deixem de cooperar com o ICE. Desde a pandemia o MIRAC já atuava também na luta imigrante em Minnesota quando o ICE começou a colocar em prática sua cartilha das batidas policiais, seguidas de detenções em massa e deportações e que afetaram enormemente as comunidades de trabalhadores rurais, agravando a situação sanitária econômico social já precárias desses grupos durante a COVID-19.

Em qualquer lugar do mundo, a luta por saúde é transversal aos conflitos políticos; portanto, uma comunidade organizada para lutar por saúde está organizada para lutar contra o racismo, contra a violência policial, o encarceramento em massa, as deportações e pela dignidade coletiva.

As batidas do ICE contra trabalhadores imigrantes estão longe de ser a única coisa ruim que aconteceu durante a pandemia nos EUA. Devo ao meu amigo Rob Wallace, epidemiologista que vive justamente em Minnesota, a noção de que há um contágio profundo entre os reinos da política e da saúde: por um lado, há registros históricos – como no caso da pandemia de H1N1 de 1918 na Itália fascista – de que pandemias podem engrossar o caldo do fascismo, a depender de como os poderes constituídos as traduzem em termos psico e sociopolíticos. A transformação da morte em massa pela Covid-19, banalizada em necropolítica de sacrifício eugenista, deu as caras no Brasil e nos EUA, como também já apontam diversas análises. Mas também o contrário pode ser verdade, como mostra uma pesquisa sobre a Alemanha de Weimar, que viu comunidades de eleitores mais afetados pelas mortes caminharem em direção a posições mais preocupadas com a saúde pública.

O outro efeito profundo da pandemia sobre o mundo contemporâneo reside no aprofundamento das agendas misóginas, tal como podemos perceber em grupos de homens ressentidos com a crise do capitalismo, organizados em coletivos supremacistas, como os Proud Boys, nos EUA. A cientista política Cara New Daggett oferece uma interpretação luminosa dessa gangue: para ela, os Proud Boys, inspirados nas proto-milícias nazistas (freikorps), fomentam uma autorrepressão sexual que deságua em uma vilificação das mulheres, abrindo caminho para desejos de punição misógina. Os combustíveis fósseis ocupam aqui um lugar privilegiado na guerra de mundos entre os aceleracionistas do fim do mundo e aqueles que lutam por outros mundos possíveis – por isso Daggett nomeia esse tipo de mentalidade de petro-masculinidade. E Trump, que é menino de ouro dos Proud Boys, agitou a matilha e depois os contratou via Departamento de Estado, tornando-os agentes do ICE, enraivecidos, desempregados e agora juridicamente imunes e armados até os dentes – há um bônus de contratação de até 50.000 dólares para um recém-contratado. É também sintomático que, em meio ao desemprego estrutural da crise, o império dos EUA, já aos frangalhos em termos socioeconômicos, só seja capaz de gerar emprego através da formação de uma milícia anti-imigração. Também salta aos olhos o fato de que os agentes de fronteira (Border Patrol) se voltem agora para as cidades-santuário do Centro-Oeste. Do ponto de vista geográfico, esse fato demonstra o colapso da fronteira do Estado-nação.

O filósofo Robert Kurz afirmou que a modernidade começou com o estouro de um canhão e um punhado de tostões – para ser mais direto, a mobilização geral da sociedade capitalista para o trabalho começou com a mobilização dos exércitos, da caserna para as fábricas, dos soldos aos salários, integrando a forma da mercadoria e do dinheiro ao trabalho abstrato da economia mercantil sob a soberania do Estado-Nação. À medida que o capitalismo vai esgotando a sua força – e o próprio planeta –, a última aposta desenvolvimentista do Império engrossa sua milícia racista dentro do próprio país, enquanto ocupa os poços de petróleo da Venezuela. O desacoplamento das nossas vidas do capitalismo passa, portanto, necessariamente pela desmilitarização, no sentido mais profundo da superação da sociedade do trabalho-mercadoria-dinheiro e dos combustíveis fósseis, sua forma mais acabada de entropia energética. Afinal, a profissionalização da morte humana está na raiz dos conflitos contemporâneos, mas também produz efeitos deletérios sobre os significados mais profundos do poder absoluto do Estado e do Mercado sobre a vida, o deixar viver ou fazer morrer.

Ou, como a nossa camarada Ruthie Gilmore nos ensina, a crise do capitalismo faz emergir zonas de sacrifício raciais onde as forças organizadas do abandono encontram as forças organizadas da violência, produzindo "a produção e exploração extralegal ou sancionada, pelo Estado, da vulnerabilidade de um grupo específico à morte prematura".
Também por isso as lutas por dignidade coletiva estão sempre atravessadas por questões territoriais: associações de mães em luta contra o genocídio de jovens, organizações indígenas contra invasões de terras ou camponeses lutando contra a pulverização aérea de agrotóxicos sabem disso. Portanto, organizar as lutas por saúde coletiva é o primeiro passo para uma sociedade que não deseja se ver extinta.
Enfim, vem muito bem a calhar a realização do 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente, organizado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva em parceria com diversos movimentos sociais (MST, MAM, MAB, MPA, Campanha Nacional Permanente contra os Agrotóxicos, dentre outros), com o título A luta da Saúde Coletiva frente ao colapso ecológico: soberania, justiça e conhecimento para a transformação, a ser realizado na Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá, entre os dias 27 e 29 de maio de 2026. Acompanhe as redes da ABRASCO para mais informações sobre como participar.


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